sexta-feira, 16 de julho de 2010

Apresentação

Este blog contém o relato diário de uma viagem que fiz em julho de 2009 pelas margens mineiras do Rio São Francisco. Eu parti da nascente do rio, na cidade de São Roque de Minas, na parte sul do estado, e fui até o município de Manga, no norte mineiro, lá na divisa com a Bahia. Subi e desci o mapa, percorrendo três mil e tantos quilômetros.

A aventura durou 13 dias e serviu como pesquisa para um projeto futuro que terá este pedaço do Brasil como cenário. Durante estas duas semanas de viagem, gravei vídeos, fotografei, entrevistei pessoas e observei e escutei muita coisa. Viajar sozinho nos deixa mais atentos.

Para conhecer um pouco os episódios, os personagens e as impressões desta viagem, clique nos posts que estão listados aqui ao lado, na pasta referente a 2009. Cada post representa um dia da jornada. Do primeiro ao décimo terceiro.

Boa viagem.

Eduardo

quinta-feira, 23 de julho de 2009

DIA 13: EPÍLOGO

(Cordisburgo, Minas Gerais, 21 de julho de 2009, 23h41)

Quem vai ao encontro do outro com a disposição para conhecer, e a humildade para compreender, descobre a verdade que há por trás da diferença e por dentro da experiência vivida.

Eu pensei muito nisso durante os treze dias de viagem pelo São Francisco. E não tenho dúvida de que a justificativa para a jornada esteja justamente nessa busca pela verdade escondida nas vidas e nas histórias daquele pedaço de mundo.

Isso porque, desde o quilômetro inicial, a viagem se propunha a servir como matéria-prima inspiradora, espécie de alicerce de construção, uma vez que a idéia primeira sempre foi continuar a aventura real com uma aventura literária.

Talvez.

Por essa pretensão criativa, eu precisava mergulhar no rio antes de falar do rio, já que a trilha da literatura, a meu ver, deve se iniciar sempre na verdade de quem conta. Uma verdade que não necessariamente precisa estar na realidade, porque o rio pode ser aquele em que se nada, mas pode ser também um rio preso no tempo ou projetado num sonho. Desde que seja verdadeiro até a última gota.

O meu rio – o que eu procurava e precisava – não estava no tempo nem no sonho, mas estirado pelo mapa de Minas a espera de ser conhecido.

E eu fui ao seu encontro porque só assim descobriria a atmosfera que representa a verdade de um lugar e que talvez pudesse me ajudar a oferecer a um hipotético leitor a oportunidade real de viver, na ficção, um mundo que não seja o seu, a partir de um ponto de vista novo e dentro de um contexto tão genuíno quanto revelador.

Em minha opinião, apenas dessa forma – ancorada numa verdade que não se quebra e não se controla – a literatura alcança a sua essência, que é proporcionar a quem lê o poder de expandir sua experiência de gente, rompendo suas limitações individuais e minimizando o vazio existencial inerente a quem vive. Sempre jogando luz sobre a beleza e a dor das pessoas, muitas vezes escondidas embaixo da rotina.

Eu acho.

À procura deste estofo inspirador, de Cássia até este ponto final da viagem, a cada quilômetro rodado, eu tentei pouco a pouco me desprender da vida familiar e me abrir para um mundo novo, o que aconteceu devagar e não sem esforço, como quem tira uma roupa molhada do corpo.

Primeiro, você é incapaz de observar com outros olhos além dos seus olhos de sempre. Você se defronta com o diferente e não sabe não julgar. Enxerga aquela gente, suas idiossincrasias e suas privações – as reais e as inventadas por seu preconceito, e tenta então buscar alguma resposta que seja esclarecedora ou que te traga paz. E enquanto se comporta assim, você se relaciona com estereótipos e vive a superfície da experiência.

Isso explica porque, apesar de não admitir, você não consegue compreender como suportam viver em um mundo que não é o seu e que parece não ir além de onde alcança a vista. Como conseguem viver à margem e se contentar com o mínimo?

E você evita a todo custo que sua consciência perceba as questões e as respostas que correm por sua cabeça, porque você tem vergonha e não se julga um imbecil.

Parece se esquecer que o diferente deve intrigar, fascinar e acrescentar, não mais que isso. Demora a perceber que está medindo a terra em frente com sua própria régua.

Mas aí, de uma hora pra outra, você presta atenção e vê que o comerciante desdentado cria os próprios netos como filhos, depois que a Doença de Chagas os deixou órfãos tão cedo. Você nota que o recepcionista de hotel, muito simples, faz questão de buscar no fundo da gaveta meia dúzia de palavras imponentes só pra poder falar com mais amor de sua própria cidade. E a cozinheira gorda sai de dentro de uma cozinha apertada e esboça um orgulho humilde ao te dizer “tem grelhado e ensopado; qual você prefere?”. E o casal adolescente gargalha lá na outra esquina com os olhos pregados um no outro; o segurança te conta seus planos para comprar uma canoa de seis metros; e a moça branquela estréia um vestido violeta numa sexta-feira à noite.

Você observa tudo e tudo o que você observa lhe proporciona um raro sentimento de compaixão e solidariedade.

A partir desse ponto, seu coração e seus olhos se abrem, e você vê a sua frente pessoas de carne e osso, de histórias e de sonhos, donas de suas próprias vaidades, reféns de seus próprios defeitos e engrandecidas por suas próprias qualidades. E então você se coloca no mesmo nível que elas e se torna uma esponja para absorver toda a verdade que circula ao seu redor, já que você sabe que, agora sim, caminha sobre o chão que procurava.

Pela convivência humilde e atenta, você aprende a colher um pouco do que há de único naquela gente. E dessa singularidade colhida, todos os reflexos, mesmo os distorcidos, mantém a força da autenticidade.

Por isso, e só por isso, não importa mais se o Xisto existiu de fato, ou se nasceu da observação de um velho sertanejo enrolando a palha do seu cigarro, combinada a três frases esparsas ouvidas de um freguês no balcão de uma venda. Não importa se a Fabiana é realmente uma pobre garota ingênua vivendo à margem da felicidade, ou se é também uma prostituta diletante à procura de uns trocados a mais. Não importa se houve mesmo melancolia numa segunda-feira em Pirapora, ou se o Telêmaco é mais ou menos que uma frase impressa numa camiseta, ou se o Jair se chama Jair, ou se a farmácia estava aberta àquela hora, se o silêncio dominou mesmo aquela noite, e se um velhinho solitário verdadeiramente cantava à porta de um hotel...

Mais do que julgar categoricamente a verdade ou a mentira, a grande questão é relativizar o julgamento.

A verdade que eu procurei nos dois mil, quinhentos e quarenta quilômetros de viagem está registrada apenas de forma parcial nas oitocentas e vinte e duas fotos e nas cinco horas e meia de gravações em vídeo. Sua essência está na impressão que aquele universo me proporcionou, porque a verdade, muitas vezes, supera os fatos e se mostra também nos rastros que eles deixam em quem vive.

Isso é o que fica. Isso é o que importa.

Este prosaico blog de notas traz as histórias por trás desta viagem, mas não só, pois é também o bastidor de um processo criativo e o laboratório de palavras onde se testa as fórmulas descobertas no dia-a-dia de um povo e de um lugar. Os textos que se empilham aqui não têm a pretensão de escalar muitos níveis até atingir a literatura; no entanto, como toda e qualquer história contada, estão a meio caminho entre a experiência inspiradora e o olhar que se lança sobre ela.

A minha viagem pelo São Francisco permanece como memória e como experiência. E dela nascerá a inspiração verdadeira para uma nova aventura; esta no papel. Uma aventura que deverá se iniciar mais ou menos assim:

“Você uma vez me disse que meu maior defeito era tentar colocar tudo em palavras...”

E mais não há pra dizer.

E.

(Belo Horizonte, Minas Gerais, 22 de julho de 2009, 19h39)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

DIA 12

A cidade de Manga representa o final da linha desta viagem. O pedaço de mundo em que eu mergulhei pra conhecer pessoas, histórias, imagens e jeitos de ser termina naquele lugar.

E justamente por ser o ponto derradeiro, cheguei a Manga exausto e com a cabeça mais no passado e no futuro do que no presente.

Pra não passar em branco, contudo, hoje cedo circulei de carro pela cidade. Eu não posso dizer muita coisa, além de que Manga tem ruas largas de paralelepípedos, tem um centrinho comercial onde as lojas tocam música baiana em volume alto, tem uma lan-house com computadores sem Word e sem internet, e tem também o irmão da Rosali, que é delegado e pastor ao mesmo tempo. Acho que Manga não tem manga.

Meia hora mais tarde, estacionei o carro no pequeno porto da cidade, esperei cinco minutos na fila para entrar na balsa, e cruzei o rio São Francisco pela nona e última vez nesta viagem. Depois de onze dias de jornada, eu começava a me aproximar de casa.

E durante a travessia curta de dez minutos um sujeito baixinho de bigode saiu de dentro de um carro velho e sem placa e veio até mim perguntar se eu poderia levá-lo de Matias Cardoso até Jaíba, porque ele achava melhor não circular com seu automóvel sem documentação. Eu olhei pra ele e disse: “eu adoraria, mas vou pra Mocambinho visitar uma tia muito velha e muito doente”.

A primeira cidadezinha do outro lado do rio é justamente Matias Cardoso, onde as ruas e as casas são mais do que centenárias e uma igrejona antiga e quase em ruínas tenta parar em pé no meio de uma praça enorme.

De volta à estrada, eu percorri algumas dezenas de quilômetros até Jaíba, uma cidade com certa repercussão nacional por causa do “Projeto Jaíba”, o maior empreendimento de irrigação da América Latina. Isso explica por que a estrada corre sempre entre plantações de banana a sumir de vista. Jaíba é cortada ao meio pela rodovia, e se um dia você passar por aqui, vai notar que lá no final, na saída da cidade, há uma padaria que não vende água mineral sem gás.

No trecho entre Jaíba e Janaúba eu cruzei uma fazenda chamada “Dinizlândia” e a cidade “Capitão Enéas”, que é conhecida como “a cidade das avenidas”. Deu uma vontade danada de entrar ali e descobrir por que diabos as avenidas são a fama local, mas eu estava com um pouco de pressa e, pela primeira vez nesta viagem, dirigia em alta velocidade.


Cheguei à Janaúba por volta de meio-dia e, depois de dar uma volta por aquela cidade de sessenta e poucos mil habitantes que se intitula a capital das frutas, achei melhor seguir para Montes Claros e tentar desperdiçar o restinho de tarde ao lado de uma piscina de hotel.

Os cento e vinte quilômetros até a “capital do norte de Minas”, eu dirigi pensando nos últimos dias de viagem. Cada um daqueles lugares únicos pelos quais passei e cada uma das histórias que descobri nas pessoas que cruzaram meu caminho. E então eu cheguei à conclusão de que precisaria descobrir um jeito de terminar este relato de viagem, já que o fim da expedição se aproximava.

Esse troço estava na minha cabeça quando entrei em Montes Claros e me vi numa cidade grande, com avenidas longas, shopping-center, universidades, aeroporto e tudo o que as cidades grandes têm.

Como presente pra mim mesmo, depois de muitos dias pelos rincões mineiros, eu escolhi um hotel que estava na parte de cima da lista do “Guia 4 Rodas” e gastei a ponta de tarde tomando um solzinho fraco e escrevendo este texto, sobre meu décimo segundo dia no São Francisco. Mas ainda sem saber como fechar o relato da viagem.

Depois, à noite, fiquei pensando principalmente nisso enquanto tomava uma Original no bar “Mapa de Minas”, que ocupa uma esquina de uma avenida cheia de bares, restaurantes, sorveterias e outras coisas com fachadas iluminadas. Ao meu redor, televisões de LCD, um espetinho de filé mignon e mulheres maquiadas usando bolsas maiores do que precisariam ser me confirmavam que a paisagem realmente havia mudado.

E, quando um Audi A3 parou em frente ao bar e dele desceu um rapazinho com gel no cabelo, eu tive a certeza de que a parte verdadeira desta viagem já tinha terminado lá atrás.

Não que as cidades maiores – e as maiores ainda, e as metrópoles também – não tenham bons personagens, boas histórias e milhões de coisas únicas. É claro que elas têm; e o Gay Talese e o Eduardo Coutinho, só pra citar dois exemplos, já cansaram de nos mostrar isso. Mas é que simplesmente não me interessam nesta viagem em particular.

E a esta altura eu já tinha pagado a conta e descoberto como seria a última parte deste relato, que será escrita em algum ponto entre Montes Claros e Belo Horizonte. Provavelmente, em Cordisburgo. Eu acho que vou dar a ela o título de “Epílogo” ou de “Confissões”. Ainda não decidi. Mas isso, só amanhã, porque agora eu preciso dormir.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

DIA 11

O alambique do Seu Nem fica a oito quilômetros de Itacarambi. Pra chegar lá, você pega uma estrada de terra, cruza um povoado minúsculo, supera três encruzilhadas traiçoeiras, passa por mais meia dúzia de casebres e uma quadra de futebol empoeirada, e só então estaciona o carro embaixo de uma sombra gorda que refresca a entrada da casa do Seu Nem.

Pra não correr risco de errar, é melhor você ter ao lado a Maria Lúcia, uma professora de geografia de Itacarambi que conhece toda a região e adora fazer visitas ao mestre da cachaça local.

Gritamos “ô de casa!” e aparece uma mulher muito gorda e peituda segurando um copo de caipirinha de abacaxi. Pela prosa familiar entre ela e a Maria Lúcia, descubro que se chama Sônia, dá aulas na mesma escola que a amiga, e é uma das cinco filhas do Seu Nem. Ela nos leva pra dentro de casa e já começa a me chamar de “filho”.

A casa é estreita, espichada e sem forro, e lá na sala a gente encontra a mulher do Seu Nem, uma senhora enorme e cega, que está sentada diante da televisão escutando o jogo da seleção brasileira de vôlei. Com paciência e carinho, a Sônia explica pra mãe o que eu fazia ali, e ela então se vira pra mim e pergunta: “você é famoso?”.

O Seu Nem estava trabalhando no alambique e saímos atrás dele seguindo a Sônia e seu copo de caipirinha. No caminho, passamos pelo barracão que abriga o engenho, o motor e alguns montes de cana. No meio dessas coisas, chama a atenção uma caldeira inglesa enorme e antiqüíssima que até uns quinze anos atrás gerava energia para o engenho. A caldeira é tão grande e tão antiga que não tem como a gente não perguntar: “como é que esse troço veio parar aqui?”.
A partir do barracão, um cano suspenso leva a garapa até o alambique, que fica uns vinte metros mais abaixo. Pra chegar lá, a gente caminha entre uma galinha e outra, e quase sempre debaixo de sombras fresquinhas. E então encontramos o artista diante de sua obra.

Seu Nem produz cachaça no mesmo alambique há mais de sessenta anos. E o alambique já produzia antes dele, uma vez que o negócio começou com seu pai. As décadas de repetição e experiência fazem com que Seu Nem execute seu trabalho com a naturalidade de quem respira. Ele trabalha em silêncio e, mais do que qualquer outra coisa, observa com olhos clínicos e ainda admirados.

Aos oitenta anos, sua memória parece reconstruir o passado apenas em fragmentos. Seu Nem fala com pausas, de um jeito cansado, apesar de atencioso.

A vida de antigamente ele resume assim: “antes tinha mais gente, chovia mais e as coisas tinham mais valor”.

Na infância, ele era proibido pelos pais de entrar no rio São Francisco, por causa da correnteza perigosa. Depois que ficou mais velho, não sentiu vontade de mergulhar naquelas águas e hoje, octogenário, confessa que “nunca se banhou no rio”, mesmo vivendo uma vida às suas margens.

Pelos pedaços de história que conta, dá pra deduzir que foi um jovem festeiro e mulherengo, e que sua produção de cachaça viveu dias de sucesso e fartura. Décadas atrás, ele produzia duzentos mil litros por ano e vendia quase tudo para Januária, onde sua cachaça era engarrafada e ganhava rótulos que se tornaram tradicionais com o tempo.

O alambique que já empregou dezoito pessoas hoje funciona com Seu Nem e mais três ajudantes. A produção não passa de duzentos litros semanais, e o engenho segue moendo a cana muito mais para manter Seu Nem de pé do que por qualquer outro motivo.

Quando a entrevista vai perdendo fôlego, Sônia, que havia deixado o alambique minutos atrás, reaparece com mais dois copos de caipirinha. Ela oferece um pra mim e outro pra Maria Lúcia. Seu Nem aproveita a dispersão para se levantar e ir abastecer o forno com mais lenhas. Nós três ficamos o observando trabalhar.

Enquanto isso, Sônia nos diz que a maior preocupação de seu pai é a continuação do alambique. Como ele só tem filhas mulheres, teme que a produção um dia cesse. E a produção, mais do que sua vida, é seu legado.

Eu me aproximo do Seu Nem e pergunto se seria possível ele me acompanhar até o barracão para que eu tirasse uma foto dele em frente à caldeira. Ele olha pra mim com aquela expressão de quem sofre para dizer não e se explica: “eu não posso meu filho; agora eu preciso ficar aqui vigiando a cachaça pingar...”. Eu compreendo.

Percebo que é hora de ir embora e me despeço. A Sônia me dá um abraço apertado e suado e pergunta se eu quero beber mais. Nesse meio tempo, Seu Nem some dentro da sala da fermentação e sai de lá com uma garrafa PET cheia de cachaça. De um jeito sincero e humilde, ele diz: “é presente pra você”. Eu agradeço, bato uma foto ali mesmo e vou embora.

Minha última imagem do Seu Nem é ele sentado no banco em frente ao alambique, sozinho e em silêncio, observando a cachaça nova pingar sem pressa dentro do garrafão. Ele tem nos olhos a admiração e o compromisso de uma vida.

No caminho de volta, Maria Lúcia foi me contando coisas sobre a região e sobre sua vida. Ela me falou dos sítios arqueológicos do Parque Nacional de Peruaçu e do ataque de abelhas que sofreu quando esteve por lá fazendo rapel. E ela falou da reserva indígena dos Xacriabás e de como seu avô morreu de ataque cardíaco e sua avó, de derrame, praticamente na mesma semana, dois meses depois dos dois se mudarem da roça para a cidade. Maria Lúcia falou bastante e, quando a deixei na porta de sua casa, ela insistiu muito para que eu ficasse pra almoçar. Agradeci e segui pra Manga.

Durante uma hora e meia rodei sobre uma estrada de terra cansativa. Cruzei um povoado chama “Ranchão”, onde parei o carro e fotografei alguns moradores locais, que ficam sentados na porta de suas casas assistindo à vida passar pela estrada. Duas gordinhas tímidas na janela escura de uma casa de barro; cinco amigos sentados em volta de uma garrafa de pinga; uma negra forte e cansada que me disse que não faz mais nada na vida além de cozinhar e esperar.

Saí do povoado com uma sensação estranha e percorri mais alguns quilômetros até a estrada invadir um lugarejo chamado São João das Missões, cidadezinha do primeiro prefeito indígena do Brasil. Quem passa lá vê uma borracharia que vende cerveja, um pequeno banco de crédito dentro de uma bicicletaria, e uma biblioteca municipal que enche a gente de esperança.

Continuei escalando o mapa de Minas até chegar à cidade de Manga, o ponto mais distante desta viagem. Entrei na cidade com a boca seca de sede, o carro empoeirado até dentro do porta-luvas, e mil seiscentos e sessenta quilômetros rodados. Apesar de consciente de todo o caminho de volta ainda a ser vencido, meu cansaço era o cansaço de um fim de viagem.

Eu encontrei a cidade completamente vazia, o que me chamou a atenção enquanto circulava por suas ruas largas e planas. Então guiei até a orla e me hospedei na “Pousada Velho Chico”, que é bem apresentável e fica pertinho do cais.

Por enquanto, posso garantir que Manga não tem nada melhor e mais interessante do que este quarto arejado e esta cama muito enorme e muito branca. Já está ótimo...

DIA 10

Januária, bem no meio do sertão de Minas Gerais, é um dos únicos lugares no estado em que o mineiro pode encher a boca e dizer: “hoje eu vou à praia”. Foi o que eu fiz esta manhã.

E pra chegar até o banco de areia, que fica do outro lado da margem, paguei cinco reais para um rapaz me levar de canoa.

A correnteza era mais forte do que parecia lá de cima, o sujeito remava de pé, balançando bastante a canoa estreita, e no meio do caminho, depois de cinco minutos de prosa, descobri que ele estava bêbado.

Quem sobrevive ao trajeto de canoa encontra do outro lado uma praia com cara de praia. A faixa de areia é bem larga, há uma quantidade razoável de banhistas e há quatro ou cinco barraquinhas de sapé onde é possível almoçar, beber, beliscar ou simplesmente fugir do sol. E como o rio em algumas partes corre apressado, a água em frente à praia é marcada por bóias de segurança, e muitos salva-vidas uniformizados desfilam vaidosos pela areia.

Lá eu conheci o Antônio Francisco, um pescador de cinqüenta e oito anos que aproveita a temporada para ganhar um dinheiro extra como segurança na praia. O Antônio é um negrão cheio de passado que adora contar histórias. E seu amor por Januária é um amor de pai, não de filho.

Ele é filho de um pescador e de uma lavadeira que lavava as roupas “da sua freguesia” nas águas do São Francisco. O rio sempre foi o quintal da sua casa.

O Antônio me disse muitas coisas. Por ele, eu soube que as praias de Januária desaparecem todos os anos e que, de tempos em tempos, reaparecem em outro lugar; soube que a temporada de pesca de 1979 foi antológica, quando “meninos pescavam surubim de trinta quilos”; e soube também alguns causos da “Ilha do Pedro Preto”.

Antônio tira histórias do bolso e as empacota com nostalgia. Ele ama Januária, mas parece amar mais a cidade de ontem. “Hoje em dia tem muita droga e muito sexo. Parece que o sexo está na moda! Só pode! O sexo está na moda! Meu pai já dizia ‘ai que saudade dos militares...’”.

Antes da gente terminar o papo, eu pergunto pra ele a idade de Januária. Ele pensa alguns segundos e se assusta por não se lembrar. Eu digo “tudo bem, depois eu procuro na internet”. Mas o Antônio continua inconformado e, ao se despedir de mim, daquele jeito tão educado e quase submisso, ele parece pedir desculpas pelo esquecimento bobo.

Eu fiquei na praia mais meia hora, escrevendo, observando e me confundindo na poluição sonora que vinha dos quiosques. Quando eu saía para pegar a canoa de volta, vejo o Antônio se aproximando com uma expressão de vitória. Ele chega e fala: “Tem 176 anos”. Eu sorrio e agradeço. E ele vai embora dizendo baixinho pra si mesmo: “como é que eu fui me esquecer da idade da princesinha, meu Deus?”.

Uma hora depois, ao deixar o “Hotel Sobradão”, não encontro o velhinho de ontem na recepção. Quem atendia era uma menina tão nova que poderia ser sua bisneta. Mas depois o avistei num banco da praça, e ele estava sozinho e em silêncio.

Dirigi cinqüenta minutos até Itacarambi, uma cidade de vinte mil habitantes que me surpreendeu em vários aspectos, a começar pelo fato de não ter cara de fim de mundo. Pelo contrário. Esta cidade de ruas de pedra e céu muito azul é vaidosa e gosta de se cuidar.

Com o privilégio de contar com um pedaço largo do São Francisco ao seu lado, Itacarambi capricha em sua orla: há uma pracinha de jardins muito verdes e uma quadra de futebol bem iluminada. Na calçada que circunda a área, o pedestre encontra placas com frases do tipo “seu sistema circulatório depende de uma boa caminhada” ou “proibido andar de bicicletas. Multa: R$ 20,00”. Poucas centenas de metros adiante está o cais, onde há dois botecos movimentados, uma outra quadra de futebol, e uma grande escadaria de concreto que desce até o nível da água.

A vaidade pueril de Itacarambi também está estampada na praça central, onde se vê estátuas da Branca de Neve e dos sete anões espalhadas pelos canteiros, e onde os bancos são coloridos e personalizados. Há, por exemplo, um banco para uma única pessoa, em que se lê “banco dos solitários”. Há o “banco dos namorados”, em formato de coração; “dos encalorados”, que é todo furado; “dos aposentados”, com um apoio para os pés; “dos intelectuais”, “dos desconhecidos”, e assim por diante...

E Itacarambi tem também a “Pousada Buritizal”, que é bem gostosa e está sem nenhum hóspede além de mim. Pelo menos, hoje. Ela foi criada quase como um hobby, depois do proprietário – um funcionário da Petrobras de Montes Claros – passar vários anos freqüentando a cidade para pescar com o tio. Ele se chama Aníbal e é uma peça rara.

Quem vê o Aníbal, vê um sujeito de óculos, de camisa desabotoada e com uma latinha de Itaipava na mão. Quem conversa um minuto com ele, percebe que se trata de um sujeito extrovertido e brincalhão. E quem conversa uma hora, descobre que ele não queria ter quarenta e oito anos de jeito nenhum.

Assim que cheguei e me apresentei, e antes que qualquer intimidade pudesse ser estabelecida, ele me deu dois tapas nas costas e disse: “rapaz, isso aqui é o paraíso, tem mulher pra caraaaalho”. Depois me apresentou os dois filhos, que estudam fora e passam férias na cidade. Além deles, apenas uma funcionária na pousada.

Pai e filhos bebiam cerveja ao lado da piscina. Quando prestei atenção à cena, imaginei três irmãos. Aliás, em alguns momentos, os filhos pareciam pai do pai, numa relação bagunçada que não deixava de ser bacana e bem resolvida.

Uma hora mais tarde, eu já não sabia se estava numa pousada ou na casa de um amigo. E enquanto a gente comia um churrasco, o Aníbal saiu pra atender ao telefone e voltou com os olhos brilhando por trás dos óculos.

Três garotas em idade universitária chegaram antes que a gente terminasse a próxima lata de cerveja. Elas eram amigas do Aníbal, estavam de férias em Itacarambi, dançavam forró, bebiam caipirinha e não eram lindas. E eu fui apresentado assim: “este aqui é meu amigo escritor”. Então, tá.

Quando escureceu, e a pousada ficou vazia novamente, eu me deitei na rede e comecei a escrever este texto. Eu pensava na melhor maneira de descrever o Aníbal e aquele seu jeito espalhafatoso de tentar enganar seu tempo, quando ele apareceu e me disse: “Larga esse computador aí, sô. Você não quer ir com a gente no aniversário de um amigo meu da maçonaria? Depois a gente pode passar pra ver o movimento no “Chico’s Bar” e, pra fechar a noite, ainda tem uma festinha no cais...”

Então, tá.


sábado, 18 de julho de 2009

DIA 09

Eu sempre achei a beleza do pôr-do-sol perigosa, justamente porque é inquestionável e universal, o que faz dela uma beleza fácil e, não raro, vazia e gratuita. A gente sabe que os atalhos oportunistas para a emoção e o prazer estético têm destino certo: a pieguice.

Mas eu preciso confessar que não me lembrei disso quando estava de costas para a igreja matriz de São Francisco, encarando o rio em frente à espera do sol se despencar do outro lado das águas. Os mais cínicos podem dizer que, no final das contas, é sempre a mesma coisa: ele vai descendo, descendo, e pronto. Eu prefiro, pelo menos desta vez, me render e dizer que, assim como o diabo, a beleza está nos detalhes. E o pôr-do-sol na cidade de São Francisco é caprichado como uma cena ensaiada.


Quem me falou da fama desse pôr-do-sol e me indicou o melhor ponto para assisti-lo foi o Genivaldo, que é recepcionista do “Hotel Atalaya”, é cruzeirense roxo e é presbiteriano.

Eu cheguei ao hotel depois de dar uma volta demorada por São Francisco. A cidade de cinqüenta mil habitantes não demonstra o desenvolvimento de Pirapora, nem tampouco parece aproveitar muito seu potencial turístico, mas me deu a impressão de ser mais bonitinha, limpa e organizada. Muita gente circula pelas ruas comerciais e outras pessoas caminham pela orla, onde está a igreja matriz – construída estrategicamente de frente para o rio – e onde é possível comer bem e barato no restaurante “Peixe Vivo”, que fica numa construção suspensa bem em cima do São Francisco.

Assim que escureceu, eu guiei até a “Praça dos Pescadores”, que é novinha em folha e está logo no final da avenida que margeia o rio. Ali há dois bares simples e arrumadinhos que distribuem mesas de plástico sobre um gramado que chega até o rio. E há também um filé de surubim gostoso; uma cozinheira velha que de vez em quando sai da cozinha e fica encarando o rio escuro; e um senhor solitário que toma cerveja no balcão e oferece sua porção para os desconhecidos ao redor.

Saí da praça tarde, com duas páginas escritas, meia dúzia de fotografias e uma azia danada. Ao entrar no hotel, pude ouvir um hóspede chato dizendo para o Genivaldo que tinha sido açougueiro por doze anos e que, depois disso, resolveu virar vegetariano.

Dormi.

O maior defeito de São Francisco é que em todo o lugar que você vai as pessoas comentam a final da Libertadores da América. E você praticamente vê camisas do Atlético caindo das árvores...

E então hoje cedo eu vim pra Januária. No trajeto de lá pra cá, não existe nada mais impressionante do que o preço do litro de álcool num posto de Japonvar.

Januária fica depois de uma ponte longa que passa sobre um pedaço largo do São Francisco. A cidade é a maior das margens mineiras do rio, com sessenta e poucos mil habitantes, e não é tão antiga quanto podem sugerir algumas de suas ruas estreitinhas, os calçamentos de pedra e um ou outro casarão bem conservado. Quem vai à “Rua da Cultura” e vê suas lojinhas de artesanato e coisas parecidas, sabe do que estou falando.

Uma faixa de terra e matagal de quase duzentos metros, que se intromete entre a avenida beira-rio e o São Francisco, enfeia a orla de Januária. Pra compensar, do outro lado da água se forma um enorme banco de areia que justifica a fama local de “praia dos mineiros”. De longe, dá pra avistar muitos quiosques de sapé, muita gente e muitos barquinhos indo e vindo.

A pequena região que compreende esta avenida à beira-rio e suas cercanias é conhecida por aqui como “cais”. Com alguns bares e restaurantes, além de três ou quatro hotéis e comércio em geral, o local é mais movimentado e estruturado do que qualquer outro que eu tenha visto até agora.

É nesta avenida que está o “Viva Maria”, um hotel gostoso com estilo praiano e uma piscina de frente para o rio. Fui pra lá doido pra me hospedar num lugar decente depois de muitos dias. O recepcionista fez questão de me contar tudo o que o hotel oferecia, me falar o preço relativamente barato e, só no momento em que eu ia ao carro buscar as malas, completar dizendo que não havia vagas. Tentei, então, a “Pousada Sesc”, e lá também estava cheio. O mesmo aconteceu no “Hotel Rondônia”.

Minha última possibilidade razoável se chamava “Hotel Sobradão”. Entrei e não encontrei ninguém no balcão da recepção, mas sentado no sofá ao lado avistei um velhinho de boina e calça xadrez que, sozinho e entusiasmado, cantava “eu vou pra maracangalha, eu vou! Eu vou de chapéu de palha, eu vou!”. Ao me ver, ele se levantou e disse: “pois não?”. E eu pensei: “é aqui que eu vou ficar”.

Uma hora depois eu estava bisbilhotando a noite de Januária. Da churrascaria onde me sentei, avistei muitos carros passando pela avenida, muitas mesas distribuídas por tudo quanto é calçada das imediações, e muita gente lotando os bares ao redor. A noite em Januária é barulhenta. No bar vizinho, uma bandinha tocava Lulu Santos, Norah Jones e Djavan; do outro lado da rua, o som de uma Palio Weekend cuspia uma música chata que parecia ser a mesma por duas horas.

Os garçons da churrascaria também me chamaram a atenção. Dois deles. O primeiro era um senhor agradável. Garçom com cara de garçom. Ele fazia questão de dizer pra você: “pedi na cozinha pra porção vir caprichada”. E quando o Jornal Nacional anunciou alguma coisa sobre a saúde do José Alencar, ele caminhou discreta e respeitosamente até a televisão do restaurante, aumentou um pouquinho o som, ergueu a vista e ficou ouvindo a notícia com os braços pra trás.

O segundo garçom era um rapaz de vinte e poucos anos. Ele se aproximou de mim ao me ver fechando um mapa sobre a mesa. “Este mapa aí tem São Paulo?”. “Não, por quê?”. “É que eu sou de Araraquara e eu queria saber mais ou menos qual a distância daqui pra lá”. Eu franzo a testa. Ele continua. “Eu vim de lá faz um ano e meio, pra cuidar da casa da minha avó, que teve que ir pra Ribeirão Preto fazer um tratamento no HC. Depois ela morreu, meu pai foi demitido e veio com minha mãe pra cá resolver uns negócios de terreno. Agora meu pai trabalha na churrasqueira e eu sou garçom. Eu nunca mais voltei...”.

Eu olhei pra ele sem saber se sentia pena ou não. O melhor que eu pude fazer foi abrir o mapa de novo e dizer: “se São Paulo estivesse neste mapa, Araraquara seria mais ou menos aqui”. E indiquei um ponto imaginário, cuja distância até o risco que circulava Januária deveria ser de umas duas réguas de trinta centímetros.

Voltei para o hotel com essa história na cabeça. E quando cheguei à recepção, encontrei o velhinho de boina cantando “Ó jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu?...”.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

DIA 08

Ele se chama Telêmaco, usa dois brincos prateados em cada orelha, veste uma camiseta laranja onde se lê “é melhor ser doido do que ficar louco procurando juízo”, e se parece com o José Genoíno dez quilos mais magro.

Telêmaco nasceu em São Romão e partiu de lá aos dezesseis anos. Viveu em Montes Claros, Belo Horizonte, Salvador, São Luis e Brasília. Viajou de carona por todos os estados do Nordeste até chegar ao norte do Piauí. E, no meio disso tudo, trabalhou no Bemge, pintou camisetas no Pelourinho, fez cursos de artes plásticas no MAM, arrumou uma mulher, teve dois filhos, e foi trocado por um representante comercial.

Mas agora Telêmaco está de volta e me recebe em sua casa ao som de Belchior. Ele me leva até uma salinha bem rústica, me aponta um sofá e se senta num banco feito de garrafas PET recicladas. Eu ligo a câmera e ele começa a contar um pouco da história desta velha cidade de 341 anos.

E antes que eu diga o que o Guimarães Rosa, um milionário pedófilo e um vapor do Mississipi têm a ver com isso tudo, eu vou explicar como eu cheguei até o Telêmaco.

Quem desce da balsa de São Romão encontra uma orla decadente formada por meia dúzia de construções com vidros quebrados e tinta gasta. A aparência melhora depois de uma esquina, onde uma avenida brota do rio e se estende perpendicularmente a ele, com seu calçamento de paralelepípedos e enormes palmeiras imperiais nos canteiros. Bem no comecinho dessa avenida, há uma pequena praça, dois botecos e uma padaria de cá, e outro boteco e uma pizzaria de lá.
Se o visitante virar logo à direita, ele vai se enveredar pela parte antiga de São Romão, com duas ou três ruas estreitinhas, uma igreja bi-centenária e o casarão da Casa de Cultura. Se o hipotético turista não virar à direita, e preferir seguir pela avenida, lá pra frente ele vai encontrar uma cidade empoeirada, quente, meio amarela, que termina bruscamente logo após o cruzamento com outra avenida, onde há um enorme descampado com uma rodoviária no meio.
A cidade é pouquinha coisa maior que Ibiaí, mas muito diferente, e não só pelos anos de vida. Em São Romão parece não existir a inocência de Ibiaí, lugar em que até a prostituição das menininhas anda de mãos dadas com a ingenuidade. Há mais carros com placas de grandes cidades, há mais comércio e serviço público e há uma conexão maior com o mundo de fora. E não sei se isso é uma virtude. Porque, pra mim, São Romão é uma cidade que era pra ter sido e não foi...

Isso tudo eu fui descobrindo aos pouquinhos. Primeiro, eu avistei uma padaria bonitinha no início daquela avenida. A padaria destoava do comércio local e pertencia a um casal de irmãos que juntou dinheiro durante cinco anos de trabalho em Londres e depois voltou pra montar o negócio na cidade natal. A dona, eu não conheci; o dono, vestia uma camisa do Arsenal, cafungava feito um cocainômano e era a cara do Felipe Massa. Chamava-se Jair e gostava de falar mais de Londres do que de São Romão. Mas pelo menos ele me disse que havia por ali um sujeito que pintava quadros e entendia das coisas. Apontou para a casa da esquina, onde mora Telêmaco.

E assim voltamos para a salinha rústica de paredes de barro bem pintadas de branco, onde estávamos a ponto de ouvir Telêmaco contar um pedaço da história de São Romão.

Ele guarda vários mapas, ilustrações e anotações sobre o passado de sua cidade. E sabe que o município desempenhou um papel importante na colonização do interior do Brasil – e depois nas relações comerciais entre as regiões – já que sua localização privilegiada, no entroncamento de vários rios, fazia de São Romão um ponto de passagem de muitas embarcações. Inclusive o lendário Benjamim Guimarães, um vapor que chegou ao São Francisco no início do século passado vindo direto do Mississipi, e que navegava entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia. Este barco ainda resiste, e de vez em quando atraca em São Romão, chegando de Pirapora num passeio turístico.

O vapor não é o único Guimarães ligado à biografia local. Há também o Rosa. As veredas eternizadas em seu “Grande Sertão” ficam alguns quilômetros a noroeste de São Romão. Telêmaco diz que as comitivas de gado de Manoelzão e companhia costumavam parar na cidade para dormir num prostíbulo de fama histórica.

Aliás, a prostituição é um ponto negativo e evidente em São Romão. Se você está aqui numa noite qualquer, e não está sofrendo com um jogo de futebol que assiste numa televisão de quatorze polegadas, você pode correr os olhos pelas bordas da pracinha central e perceber pelo menos meia dúzia de garotas a espera de uma turma de pescadores de Marília, Uberaba ou de qualquer outro lugar.

Essa cena se repete em quase todas as pequenas cidades às margens do São Francisco. O que as outras cidades nunca tiveram, e São Romão já teve, é um fazendeiro milionário tarado em adolescentes virgens. Telêmaco comenta que a obsessão do senhor Antônio Luciano Pereira Filho estimulou muita prostituição em São Romão. O que ele também fazia em Belo Horizonte, onde era dono de metade dos imóveis do centro, ganhou fama e acabou virando personagem na minissérie “Hilda Furacão”. Ele morreu aos 93 anos, com 32 filhos, muita terra, muito dinheiro e duas mil ex-virgens no currículo. Há quem diga que ele engravidou uma de suas próprias filhas, sem saber o que fazia...

Telêmaco conta todas essas histórias de um jeito de quem já contou várias vezes. E sempre com um tom crítico, o mesmo que ele mantém em relação a quase tudo na cidade que ama. O povo preguiçoso, as intrigas da política, as fofocas, etc.

Depois de passar trinta anos numa vida de aventuras, errância hippie e alcoolismo, hoje Telêmaco parou de beber, está casado, com aliança no dedo e tudo, e seu maior sonho é ser pai de novo, aos cinqüenta anos, assim que terminar de reformar a casinha que comprou há um ano.

Quando eu me despedi dele, após uma hora de histórias, saí com a impressão de que, se ele não existisse, eu precisaria inventá-lo como personagem.

E então eu embarquei na balsa novamente e, pra evitar problemas, preferi percorrer os cento e dez quilômetros de asfalto, a me arriscar nos cinqüenta e três de terra.

No trajeto rumo a São Francisco, eu fui relembrando todas as coisas que eu vi e ouvi na cidade cheia de passado que eu acabava de deixar. E cheguei à conclusão de que, mesmo que eu tivesse visto prostitutas de fraldas e pingüins tomando sol às margens do rio, minha lembrança mais forte de São Romão continuaria sendo a de um silêncio imprevisto ocupando o espaço reservado para a felicidade: São Romão será pra mim, acima de tudo, o lugar onde vi o Cruzeiro desperdiçar uma Libertadores dentro de um Mineirão azul; onde assisti ao jogo
no bar de um bocó sorridente que fez questão de me dizer que seu apelido era Galoucura.

E segui pra São Francisco...