quinta-feira, 23 de julho de 2009

DIA 13: EPÍLOGO

(Cordisburgo, Minas Gerais, 21 de julho de 2009, 23h41)

Quem vai ao encontro do outro com a disposição para conhecer, e a humildade para compreender, descobre a verdade que há por trás da diferença e por dentro da experiência vivida.

Eu pensei muito nisso durante os treze dias de viagem pelo São Francisco. E não tenho dúvida de que a justificativa para a jornada esteja justamente nessa busca pela verdade escondida nas vidas e nas histórias daquele pedaço de mundo.

Isso porque, desde o quilômetro inicial, a viagem se propunha a servir como matéria-prima inspiradora, espécie de alicerce de construção, uma vez que a idéia primeira sempre foi continuar a aventura real com uma aventura literária.

Talvez.

Por essa pretensão criativa, eu precisava mergulhar no rio antes de falar do rio, já que a trilha da literatura, a meu ver, deve se iniciar sempre na verdade de quem conta. Uma verdade que não necessariamente precisa estar na realidade, porque o rio pode ser aquele em que se nada, mas pode ser também um rio preso no tempo ou projetado num sonho. Desde que seja verdadeiro até a última gota.

O meu rio – o que eu procurava e precisava – não estava no tempo nem no sonho, mas estirado pelo mapa de Minas a espera de ser conhecido.

E eu fui ao seu encontro porque só assim descobriria a atmosfera que representa a verdade de um lugar e que talvez pudesse me ajudar a oferecer a um hipotético leitor a oportunidade real de viver, na ficção, um mundo que não seja o seu, a partir de um ponto de vista novo e dentro de um contexto tão genuíno quanto revelador.

Em minha opinião, apenas dessa forma – ancorada numa verdade que não se quebra e não se controla – a literatura alcança a sua essência, que é proporcionar a quem lê o poder de expandir sua experiência de gente, rompendo suas limitações individuais e minimizando o vazio existencial inerente a quem vive. Sempre jogando luz sobre a beleza e a dor das pessoas, muitas vezes escondidas embaixo da rotina.

Eu acho.

À procura deste estofo inspirador, de Cássia até este ponto final da viagem, a cada quilômetro rodado, eu tentei pouco a pouco me desprender da vida familiar e me abrir para um mundo novo, o que aconteceu devagar e não sem esforço, como quem tira uma roupa molhada do corpo.

Primeiro, você é incapaz de observar com outros olhos além dos seus olhos de sempre. Você se defronta com o diferente e não sabe não julgar. Enxerga aquela gente, suas idiossincrasias e suas privações – as reais e as inventadas por seu preconceito, e tenta então buscar alguma resposta que seja esclarecedora ou que te traga paz. E enquanto se comporta assim, você se relaciona com estereótipos e vive a superfície da experiência.

Isso explica porque, apesar de não admitir, você não consegue compreender como suportam viver em um mundo que não é o seu e que parece não ir além de onde alcança a vista. Como conseguem viver à margem e se contentar com o mínimo?

E você evita a todo custo que sua consciência perceba as questões e as respostas que correm por sua cabeça, porque você tem vergonha e não se julga um imbecil.

Parece se esquecer que o diferente deve intrigar, fascinar e acrescentar, não mais que isso. Demora a perceber que está medindo a terra em frente com sua própria régua.

Mas aí, de uma hora pra outra, você presta atenção e vê que o comerciante desdentado cria os próprios netos como filhos, depois que a Doença de Chagas os deixou órfãos tão cedo. Você nota que o recepcionista de hotel, muito simples, faz questão de buscar no fundo da gaveta meia dúzia de palavras imponentes só pra poder falar com mais amor de sua própria cidade. E a cozinheira gorda sai de dentro de uma cozinha apertada e esboça um orgulho humilde ao te dizer “tem grelhado e ensopado; qual você prefere?”. E o casal adolescente gargalha lá na outra esquina com os olhos pregados um no outro; o segurança te conta seus planos para comprar uma canoa de seis metros; e a moça branquela estréia um vestido violeta numa sexta-feira à noite.

Você observa tudo e tudo o que você observa lhe proporciona um raro sentimento de compaixão e solidariedade.

A partir desse ponto, seu coração e seus olhos se abrem, e você vê a sua frente pessoas de carne e osso, de histórias e de sonhos, donas de suas próprias vaidades, reféns de seus próprios defeitos e engrandecidas por suas próprias qualidades. E então você se coloca no mesmo nível que elas e se torna uma esponja para absorver toda a verdade que circula ao seu redor, já que você sabe que, agora sim, caminha sobre o chão que procurava.

Pela convivência humilde e atenta, você aprende a colher um pouco do que há de único naquela gente. E dessa singularidade colhida, todos os reflexos, mesmo os distorcidos, mantém a força da autenticidade.

Por isso, e só por isso, não importa mais se o Xisto existiu de fato, ou se nasceu da observação de um velho sertanejo enrolando a palha do seu cigarro, combinada a três frases esparsas ouvidas de um freguês no balcão de uma venda. Não importa se a Fabiana é realmente uma pobre garota ingênua vivendo à margem da felicidade, ou se é também uma prostituta diletante à procura de uns trocados a mais. Não importa se houve mesmo melancolia numa segunda-feira em Pirapora, ou se o Telêmaco é mais ou menos que uma frase impressa numa camiseta, ou se o Jair se chama Jair, ou se a farmácia estava aberta àquela hora, se o silêncio dominou mesmo aquela noite, e se um velhinho solitário verdadeiramente cantava à porta de um hotel...

Mais do que julgar categoricamente a verdade ou a mentira, a grande questão é relativizar o julgamento.

A verdade que eu procurei nos dois mil, quinhentos e quarenta quilômetros de viagem está registrada apenas de forma parcial nas oitocentas e vinte e duas fotos e nas cinco horas e meia de gravações em vídeo. Sua essência está na impressão que aquele universo me proporcionou, porque a verdade, muitas vezes, supera os fatos e se mostra também nos rastros que eles deixam em quem vive.

Isso é o que fica. Isso é o que importa.

Este prosaico blog de notas traz as histórias por trás desta viagem, mas não só, pois é também o bastidor de um processo criativo e o laboratório de palavras onde se testa as fórmulas descobertas no dia-a-dia de um povo e de um lugar. Os textos que se empilham aqui não têm a pretensão de escalar muitos níveis até atingir a literatura; no entanto, como toda e qualquer história contada, estão a meio caminho entre a experiência inspiradora e o olhar que se lança sobre ela.

A minha viagem pelo São Francisco permanece como memória e como experiência. E dela nascerá a inspiração verdadeira para uma nova aventura; esta no papel. Uma aventura que deverá se iniciar mais ou menos assim:

“Você uma vez me disse que meu maior defeito era tentar colocar tudo em palavras...”

E mais não há pra dizer.

E.

(Belo Horizonte, Minas Gerais, 22 de julho de 2009, 19h39)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

DIA 12

A cidade de Manga representa o final da linha desta viagem. O pedaço de mundo em que eu mergulhei pra conhecer pessoas, histórias, imagens e jeitos de ser termina naquele lugar.

E justamente por ser o ponto derradeiro, cheguei a Manga exausto e com a cabeça mais no passado e no futuro do que no presente.

Pra não passar em branco, contudo, hoje cedo circulei de carro pela cidade. Eu não posso dizer muita coisa, além de que Manga tem ruas largas de paralelepípedos, tem um centrinho comercial onde as lojas tocam música baiana em volume alto, tem uma lan-house com computadores sem Word e sem internet, e tem também o irmão da Rosali, que é delegado e pastor ao mesmo tempo. Acho que Manga não tem manga.

Meia hora mais tarde, estacionei o carro no pequeno porto da cidade, esperei cinco minutos na fila para entrar na balsa, e cruzei o rio São Francisco pela nona e última vez nesta viagem. Depois de onze dias de jornada, eu começava a me aproximar de casa.

E durante a travessia curta de dez minutos um sujeito baixinho de bigode saiu de dentro de um carro velho e sem placa e veio até mim perguntar se eu poderia levá-lo de Matias Cardoso até Jaíba, porque ele achava melhor não circular com seu automóvel sem documentação. Eu olhei pra ele e disse: “eu adoraria, mas vou pra Mocambinho visitar uma tia muito velha e muito doente”.

A primeira cidadezinha do outro lado do rio é justamente Matias Cardoso, onde as ruas e as casas são mais do que centenárias e uma igrejona antiga e quase em ruínas tenta parar em pé no meio de uma praça enorme.

De volta à estrada, eu percorri algumas dezenas de quilômetros até Jaíba, uma cidade com certa repercussão nacional por causa do “Projeto Jaíba”, o maior empreendimento de irrigação da América Latina. Isso explica por que a estrada corre sempre entre plantações de banana a sumir de vista. Jaíba é cortada ao meio pela rodovia, e se um dia você passar por aqui, vai notar que lá no final, na saída da cidade, há uma padaria que não vende água mineral sem gás.

No trecho entre Jaíba e Janaúba eu cruzei uma fazenda chamada “Dinizlândia” e a cidade “Capitão Enéas”, que é conhecida como “a cidade das avenidas”. Deu uma vontade danada de entrar ali e descobrir por que diabos as avenidas são a fama local, mas eu estava com um pouco de pressa e, pela primeira vez nesta viagem, dirigia em alta velocidade.


Cheguei à Janaúba por volta de meio-dia e, depois de dar uma volta por aquela cidade de sessenta e poucos mil habitantes que se intitula a capital das frutas, achei melhor seguir para Montes Claros e tentar desperdiçar o restinho de tarde ao lado de uma piscina de hotel.

Os cento e vinte quilômetros até a “capital do norte de Minas”, eu dirigi pensando nos últimos dias de viagem. Cada um daqueles lugares únicos pelos quais passei e cada uma das histórias que descobri nas pessoas que cruzaram meu caminho. E então eu cheguei à conclusão de que precisaria descobrir um jeito de terminar este relato de viagem, já que o fim da expedição se aproximava.

Esse troço estava na minha cabeça quando entrei em Montes Claros e me vi numa cidade grande, com avenidas longas, shopping-center, universidades, aeroporto e tudo o que as cidades grandes têm.

Como presente pra mim mesmo, depois de muitos dias pelos rincões mineiros, eu escolhi um hotel que estava na parte de cima da lista do “Guia 4 Rodas” e gastei a ponta de tarde tomando um solzinho fraco e escrevendo este texto, sobre meu décimo segundo dia no São Francisco. Mas ainda sem saber como fechar o relato da viagem.

Depois, à noite, fiquei pensando principalmente nisso enquanto tomava uma Original no bar “Mapa de Minas”, que ocupa uma esquina de uma avenida cheia de bares, restaurantes, sorveterias e outras coisas com fachadas iluminadas. Ao meu redor, televisões de LCD, um espetinho de filé mignon e mulheres maquiadas usando bolsas maiores do que precisariam ser me confirmavam que a paisagem realmente havia mudado.

E, quando um Audi A3 parou em frente ao bar e dele desceu um rapazinho com gel no cabelo, eu tive a certeza de que a parte verdadeira desta viagem já tinha terminado lá atrás.

Não que as cidades maiores – e as maiores ainda, e as metrópoles também – não tenham bons personagens, boas histórias e milhões de coisas únicas. É claro que elas têm; e o Gay Talese e o Eduardo Coutinho, só pra citar dois exemplos, já cansaram de nos mostrar isso. Mas é que simplesmente não me interessam nesta viagem em particular.

E a esta altura eu já tinha pagado a conta e descoberto como seria a última parte deste relato, que será escrita em algum ponto entre Montes Claros e Belo Horizonte. Provavelmente, em Cordisburgo. Eu acho que vou dar a ela o título de “Epílogo” ou de “Confissões”. Ainda não decidi. Mas isso, só amanhã, porque agora eu preciso dormir.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

DIA 11

O alambique do Seu Nem fica a oito quilômetros de Itacarambi. Pra chegar lá, você pega uma estrada de terra, cruza um povoado minúsculo, supera três encruzilhadas traiçoeiras, passa por mais meia dúzia de casebres e uma quadra de futebol empoeirada, e só então estaciona o carro embaixo de uma sombra gorda que refresca a entrada da casa do Seu Nem.

Pra não correr risco de errar, é melhor você ter ao lado a Maria Lúcia, uma professora de geografia de Itacarambi que conhece toda a região e adora fazer visitas ao mestre da cachaça local.

Gritamos “ô de casa!” e aparece uma mulher muito gorda e peituda segurando um copo de caipirinha de abacaxi. Pela prosa familiar entre ela e a Maria Lúcia, descubro que se chama Sônia, dá aulas na mesma escola que a amiga, e é uma das cinco filhas do Seu Nem. Ela nos leva pra dentro de casa e já começa a me chamar de “filho”.

A casa é estreita, espichada e sem forro, e lá na sala a gente encontra a mulher do Seu Nem, uma senhora enorme e cega, que está sentada diante da televisão escutando o jogo da seleção brasileira de vôlei. Com paciência e carinho, a Sônia explica pra mãe o que eu fazia ali, e ela então se vira pra mim e pergunta: “você é famoso?”.

O Seu Nem estava trabalhando no alambique e saímos atrás dele seguindo a Sônia e seu copo de caipirinha. No caminho, passamos pelo barracão que abriga o engenho, o motor e alguns montes de cana. No meio dessas coisas, chama a atenção uma caldeira inglesa enorme e antiqüíssima que até uns quinze anos atrás gerava energia para o engenho. A caldeira é tão grande e tão antiga que não tem como a gente não perguntar: “como é que esse troço veio parar aqui?”.
A partir do barracão, um cano suspenso leva a garapa até o alambique, que fica uns vinte metros mais abaixo. Pra chegar lá, a gente caminha entre uma galinha e outra, e quase sempre debaixo de sombras fresquinhas. E então encontramos o artista diante de sua obra.

Seu Nem produz cachaça no mesmo alambique há mais de sessenta anos. E o alambique já produzia antes dele, uma vez que o negócio começou com seu pai. As décadas de repetição e experiência fazem com que Seu Nem execute seu trabalho com a naturalidade de quem respira. Ele trabalha em silêncio e, mais do que qualquer outra coisa, observa com olhos clínicos e ainda admirados.

Aos oitenta anos, sua memória parece reconstruir o passado apenas em fragmentos. Seu Nem fala com pausas, de um jeito cansado, apesar de atencioso.

A vida de antigamente ele resume assim: “antes tinha mais gente, chovia mais e as coisas tinham mais valor”.

Na infância, ele era proibido pelos pais de entrar no rio São Francisco, por causa da correnteza perigosa. Depois que ficou mais velho, não sentiu vontade de mergulhar naquelas águas e hoje, octogenário, confessa que “nunca se banhou no rio”, mesmo vivendo uma vida às suas margens.

Pelos pedaços de história que conta, dá pra deduzir que foi um jovem festeiro e mulherengo, e que sua produção de cachaça viveu dias de sucesso e fartura. Décadas atrás, ele produzia duzentos mil litros por ano e vendia quase tudo para Januária, onde sua cachaça era engarrafada e ganhava rótulos que se tornaram tradicionais com o tempo.

O alambique que já empregou dezoito pessoas hoje funciona com Seu Nem e mais três ajudantes. A produção não passa de duzentos litros semanais, e o engenho segue moendo a cana muito mais para manter Seu Nem de pé do que por qualquer outro motivo.

Quando a entrevista vai perdendo fôlego, Sônia, que havia deixado o alambique minutos atrás, reaparece com mais dois copos de caipirinha. Ela oferece um pra mim e outro pra Maria Lúcia. Seu Nem aproveita a dispersão para se levantar e ir abastecer o forno com mais lenhas. Nós três ficamos o observando trabalhar.

Enquanto isso, Sônia nos diz que a maior preocupação de seu pai é a continuação do alambique. Como ele só tem filhas mulheres, teme que a produção um dia cesse. E a produção, mais do que sua vida, é seu legado.

Eu me aproximo do Seu Nem e pergunto se seria possível ele me acompanhar até o barracão para que eu tirasse uma foto dele em frente à caldeira. Ele olha pra mim com aquela expressão de quem sofre para dizer não e se explica: “eu não posso meu filho; agora eu preciso ficar aqui vigiando a cachaça pingar...”. Eu compreendo.

Percebo que é hora de ir embora e me despeço. A Sônia me dá um abraço apertado e suado e pergunta se eu quero beber mais. Nesse meio tempo, Seu Nem some dentro da sala da fermentação e sai de lá com uma garrafa PET cheia de cachaça. De um jeito sincero e humilde, ele diz: “é presente pra você”. Eu agradeço, bato uma foto ali mesmo e vou embora.

Minha última imagem do Seu Nem é ele sentado no banco em frente ao alambique, sozinho e em silêncio, observando a cachaça nova pingar sem pressa dentro do garrafão. Ele tem nos olhos a admiração e o compromisso de uma vida.

No caminho de volta, Maria Lúcia foi me contando coisas sobre a região e sobre sua vida. Ela me falou dos sítios arqueológicos do Parque Nacional de Peruaçu e do ataque de abelhas que sofreu quando esteve por lá fazendo rapel. E ela falou da reserva indígena dos Xacriabás e de como seu avô morreu de ataque cardíaco e sua avó, de derrame, praticamente na mesma semana, dois meses depois dos dois se mudarem da roça para a cidade. Maria Lúcia falou bastante e, quando a deixei na porta de sua casa, ela insistiu muito para que eu ficasse pra almoçar. Agradeci e segui pra Manga.

Durante uma hora e meia rodei sobre uma estrada de terra cansativa. Cruzei um povoado chama “Ranchão”, onde parei o carro e fotografei alguns moradores locais, que ficam sentados na porta de suas casas assistindo à vida passar pela estrada. Duas gordinhas tímidas na janela escura de uma casa de barro; cinco amigos sentados em volta de uma garrafa de pinga; uma negra forte e cansada que me disse que não faz mais nada na vida além de cozinhar e esperar.

Saí do povoado com uma sensação estranha e percorri mais alguns quilômetros até a estrada invadir um lugarejo chamado São João das Missões, cidadezinha do primeiro prefeito indígena do Brasil. Quem passa lá vê uma borracharia que vende cerveja, um pequeno banco de crédito dentro de uma bicicletaria, e uma biblioteca municipal que enche a gente de esperança.

Continuei escalando o mapa de Minas até chegar à cidade de Manga, o ponto mais distante desta viagem. Entrei na cidade com a boca seca de sede, o carro empoeirado até dentro do porta-luvas, e mil seiscentos e sessenta quilômetros rodados. Apesar de consciente de todo o caminho de volta ainda a ser vencido, meu cansaço era o cansaço de um fim de viagem.

Eu encontrei a cidade completamente vazia, o que me chamou a atenção enquanto circulava por suas ruas largas e planas. Então guiei até a orla e me hospedei na “Pousada Velho Chico”, que é bem apresentável e fica pertinho do cais.

Por enquanto, posso garantir que Manga não tem nada melhor e mais interessante do que este quarto arejado e esta cama muito enorme e muito branca. Já está ótimo...

DIA 10

Januária, bem no meio do sertão de Minas Gerais, é um dos únicos lugares no estado em que o mineiro pode encher a boca e dizer: “hoje eu vou à praia”. Foi o que eu fiz esta manhã.

E pra chegar até o banco de areia, que fica do outro lado da margem, paguei cinco reais para um rapaz me levar de canoa.

A correnteza era mais forte do que parecia lá de cima, o sujeito remava de pé, balançando bastante a canoa estreita, e no meio do caminho, depois de cinco minutos de prosa, descobri que ele estava bêbado.

Quem sobrevive ao trajeto de canoa encontra do outro lado uma praia com cara de praia. A faixa de areia é bem larga, há uma quantidade razoável de banhistas e há quatro ou cinco barraquinhas de sapé onde é possível almoçar, beber, beliscar ou simplesmente fugir do sol. E como o rio em algumas partes corre apressado, a água em frente à praia é marcada por bóias de segurança, e muitos salva-vidas uniformizados desfilam vaidosos pela areia.

Lá eu conheci o Antônio Francisco, um pescador de cinqüenta e oito anos que aproveita a temporada para ganhar um dinheiro extra como segurança na praia. O Antônio é um negrão cheio de passado que adora contar histórias. E seu amor por Januária é um amor de pai, não de filho.

Ele é filho de um pescador e de uma lavadeira que lavava as roupas “da sua freguesia” nas águas do São Francisco. O rio sempre foi o quintal da sua casa.

O Antônio me disse muitas coisas. Por ele, eu soube que as praias de Januária desaparecem todos os anos e que, de tempos em tempos, reaparecem em outro lugar; soube que a temporada de pesca de 1979 foi antológica, quando “meninos pescavam surubim de trinta quilos”; e soube também alguns causos da “Ilha do Pedro Preto”.

Antônio tira histórias do bolso e as empacota com nostalgia. Ele ama Januária, mas parece amar mais a cidade de ontem. “Hoje em dia tem muita droga e muito sexo. Parece que o sexo está na moda! Só pode! O sexo está na moda! Meu pai já dizia ‘ai que saudade dos militares...’”.

Antes da gente terminar o papo, eu pergunto pra ele a idade de Januária. Ele pensa alguns segundos e se assusta por não se lembrar. Eu digo “tudo bem, depois eu procuro na internet”. Mas o Antônio continua inconformado e, ao se despedir de mim, daquele jeito tão educado e quase submisso, ele parece pedir desculpas pelo esquecimento bobo.

Eu fiquei na praia mais meia hora, escrevendo, observando e me confundindo na poluição sonora que vinha dos quiosques. Quando eu saía para pegar a canoa de volta, vejo o Antônio se aproximando com uma expressão de vitória. Ele chega e fala: “Tem 176 anos”. Eu sorrio e agradeço. E ele vai embora dizendo baixinho pra si mesmo: “como é que eu fui me esquecer da idade da princesinha, meu Deus?”.

Uma hora depois, ao deixar o “Hotel Sobradão”, não encontro o velhinho de ontem na recepção. Quem atendia era uma menina tão nova que poderia ser sua bisneta. Mas depois o avistei num banco da praça, e ele estava sozinho e em silêncio.

Dirigi cinqüenta minutos até Itacarambi, uma cidade de vinte mil habitantes que me surpreendeu em vários aspectos, a começar pelo fato de não ter cara de fim de mundo. Pelo contrário. Esta cidade de ruas de pedra e céu muito azul é vaidosa e gosta de se cuidar.

Com o privilégio de contar com um pedaço largo do São Francisco ao seu lado, Itacarambi capricha em sua orla: há uma pracinha de jardins muito verdes e uma quadra de futebol bem iluminada. Na calçada que circunda a área, o pedestre encontra placas com frases do tipo “seu sistema circulatório depende de uma boa caminhada” ou “proibido andar de bicicletas. Multa: R$ 20,00”. Poucas centenas de metros adiante está o cais, onde há dois botecos movimentados, uma outra quadra de futebol, e uma grande escadaria de concreto que desce até o nível da água.

A vaidade pueril de Itacarambi também está estampada na praça central, onde se vê estátuas da Branca de Neve e dos sete anões espalhadas pelos canteiros, e onde os bancos são coloridos e personalizados. Há, por exemplo, um banco para uma única pessoa, em que se lê “banco dos solitários”. Há o “banco dos namorados”, em formato de coração; “dos encalorados”, que é todo furado; “dos aposentados”, com um apoio para os pés; “dos intelectuais”, “dos desconhecidos”, e assim por diante...

E Itacarambi tem também a “Pousada Buritizal”, que é bem gostosa e está sem nenhum hóspede além de mim. Pelo menos, hoje. Ela foi criada quase como um hobby, depois do proprietário – um funcionário da Petrobras de Montes Claros – passar vários anos freqüentando a cidade para pescar com o tio. Ele se chama Aníbal e é uma peça rara.

Quem vê o Aníbal, vê um sujeito de óculos, de camisa desabotoada e com uma latinha de Itaipava na mão. Quem conversa um minuto com ele, percebe que se trata de um sujeito extrovertido e brincalhão. E quem conversa uma hora, descobre que ele não queria ter quarenta e oito anos de jeito nenhum.

Assim que cheguei e me apresentei, e antes que qualquer intimidade pudesse ser estabelecida, ele me deu dois tapas nas costas e disse: “rapaz, isso aqui é o paraíso, tem mulher pra caraaaalho”. Depois me apresentou os dois filhos, que estudam fora e passam férias na cidade. Além deles, apenas uma funcionária na pousada.

Pai e filhos bebiam cerveja ao lado da piscina. Quando prestei atenção à cena, imaginei três irmãos. Aliás, em alguns momentos, os filhos pareciam pai do pai, numa relação bagunçada que não deixava de ser bacana e bem resolvida.

Uma hora mais tarde, eu já não sabia se estava numa pousada ou na casa de um amigo. E enquanto a gente comia um churrasco, o Aníbal saiu pra atender ao telefone e voltou com os olhos brilhando por trás dos óculos.

Três garotas em idade universitária chegaram antes que a gente terminasse a próxima lata de cerveja. Elas eram amigas do Aníbal, estavam de férias em Itacarambi, dançavam forró, bebiam caipirinha e não eram lindas. E eu fui apresentado assim: “este aqui é meu amigo escritor”. Então, tá.

Quando escureceu, e a pousada ficou vazia novamente, eu me deitei na rede e comecei a escrever este texto. Eu pensava na melhor maneira de descrever o Aníbal e aquele seu jeito espalhafatoso de tentar enganar seu tempo, quando ele apareceu e me disse: “Larga esse computador aí, sô. Você não quer ir com a gente no aniversário de um amigo meu da maçonaria? Depois a gente pode passar pra ver o movimento no “Chico’s Bar” e, pra fechar a noite, ainda tem uma festinha no cais...”

Então, tá.


sábado, 18 de julho de 2009

DIA 09

Eu sempre achei a beleza do pôr-do-sol perigosa, justamente porque é inquestionável e universal, o que faz dela uma beleza fácil e, não raro, vazia e gratuita. A gente sabe que os atalhos oportunistas para a emoção e o prazer estético têm destino certo: a pieguice.

Mas eu preciso confessar que não me lembrei disso quando estava de costas para a igreja matriz de São Francisco, encarando o rio em frente à espera do sol se despencar do outro lado das águas. Os mais cínicos podem dizer que, no final das contas, é sempre a mesma coisa: ele vai descendo, descendo, e pronto. Eu prefiro, pelo menos desta vez, me render e dizer que, assim como o diabo, a beleza está nos detalhes. E o pôr-do-sol na cidade de São Francisco é caprichado como uma cena ensaiada.


Quem me falou da fama desse pôr-do-sol e me indicou o melhor ponto para assisti-lo foi o Genivaldo, que é recepcionista do “Hotel Atalaya”, é cruzeirense roxo e é presbiteriano.

Eu cheguei ao hotel depois de dar uma volta demorada por São Francisco. A cidade de cinqüenta mil habitantes não demonstra o desenvolvimento de Pirapora, nem tampouco parece aproveitar muito seu potencial turístico, mas me deu a impressão de ser mais bonitinha, limpa e organizada. Muita gente circula pelas ruas comerciais e outras pessoas caminham pela orla, onde está a igreja matriz – construída estrategicamente de frente para o rio – e onde é possível comer bem e barato no restaurante “Peixe Vivo”, que fica numa construção suspensa bem em cima do São Francisco.

Assim que escureceu, eu guiei até a “Praça dos Pescadores”, que é novinha em folha e está logo no final da avenida que margeia o rio. Ali há dois bares simples e arrumadinhos que distribuem mesas de plástico sobre um gramado que chega até o rio. E há também um filé de surubim gostoso; uma cozinheira velha que de vez em quando sai da cozinha e fica encarando o rio escuro; e um senhor solitário que toma cerveja no balcão e oferece sua porção para os desconhecidos ao redor.

Saí da praça tarde, com duas páginas escritas, meia dúzia de fotografias e uma azia danada. Ao entrar no hotel, pude ouvir um hóspede chato dizendo para o Genivaldo que tinha sido açougueiro por doze anos e que, depois disso, resolveu virar vegetariano.

Dormi.

O maior defeito de São Francisco é que em todo o lugar que você vai as pessoas comentam a final da Libertadores da América. E você praticamente vê camisas do Atlético caindo das árvores...

E então hoje cedo eu vim pra Januária. No trajeto de lá pra cá, não existe nada mais impressionante do que o preço do litro de álcool num posto de Japonvar.

Januária fica depois de uma ponte longa que passa sobre um pedaço largo do São Francisco. A cidade é a maior das margens mineiras do rio, com sessenta e poucos mil habitantes, e não é tão antiga quanto podem sugerir algumas de suas ruas estreitinhas, os calçamentos de pedra e um ou outro casarão bem conservado. Quem vai à “Rua da Cultura” e vê suas lojinhas de artesanato e coisas parecidas, sabe do que estou falando.

Uma faixa de terra e matagal de quase duzentos metros, que se intromete entre a avenida beira-rio e o São Francisco, enfeia a orla de Januária. Pra compensar, do outro lado da água se forma um enorme banco de areia que justifica a fama local de “praia dos mineiros”. De longe, dá pra avistar muitos quiosques de sapé, muita gente e muitos barquinhos indo e vindo.

A pequena região que compreende esta avenida à beira-rio e suas cercanias é conhecida por aqui como “cais”. Com alguns bares e restaurantes, além de três ou quatro hotéis e comércio em geral, o local é mais movimentado e estruturado do que qualquer outro que eu tenha visto até agora.

É nesta avenida que está o “Viva Maria”, um hotel gostoso com estilo praiano e uma piscina de frente para o rio. Fui pra lá doido pra me hospedar num lugar decente depois de muitos dias. O recepcionista fez questão de me contar tudo o que o hotel oferecia, me falar o preço relativamente barato e, só no momento em que eu ia ao carro buscar as malas, completar dizendo que não havia vagas. Tentei, então, a “Pousada Sesc”, e lá também estava cheio. O mesmo aconteceu no “Hotel Rondônia”.

Minha última possibilidade razoável se chamava “Hotel Sobradão”. Entrei e não encontrei ninguém no balcão da recepção, mas sentado no sofá ao lado avistei um velhinho de boina e calça xadrez que, sozinho e entusiasmado, cantava “eu vou pra maracangalha, eu vou! Eu vou de chapéu de palha, eu vou!”. Ao me ver, ele se levantou e disse: “pois não?”. E eu pensei: “é aqui que eu vou ficar”.

Uma hora depois eu estava bisbilhotando a noite de Januária. Da churrascaria onde me sentei, avistei muitos carros passando pela avenida, muitas mesas distribuídas por tudo quanto é calçada das imediações, e muita gente lotando os bares ao redor. A noite em Januária é barulhenta. No bar vizinho, uma bandinha tocava Lulu Santos, Norah Jones e Djavan; do outro lado da rua, o som de uma Palio Weekend cuspia uma música chata que parecia ser a mesma por duas horas.

Os garçons da churrascaria também me chamaram a atenção. Dois deles. O primeiro era um senhor agradável. Garçom com cara de garçom. Ele fazia questão de dizer pra você: “pedi na cozinha pra porção vir caprichada”. E quando o Jornal Nacional anunciou alguma coisa sobre a saúde do José Alencar, ele caminhou discreta e respeitosamente até a televisão do restaurante, aumentou um pouquinho o som, ergueu a vista e ficou ouvindo a notícia com os braços pra trás.

O segundo garçom era um rapaz de vinte e poucos anos. Ele se aproximou de mim ao me ver fechando um mapa sobre a mesa. “Este mapa aí tem São Paulo?”. “Não, por quê?”. “É que eu sou de Araraquara e eu queria saber mais ou menos qual a distância daqui pra lá”. Eu franzo a testa. Ele continua. “Eu vim de lá faz um ano e meio, pra cuidar da casa da minha avó, que teve que ir pra Ribeirão Preto fazer um tratamento no HC. Depois ela morreu, meu pai foi demitido e veio com minha mãe pra cá resolver uns negócios de terreno. Agora meu pai trabalha na churrasqueira e eu sou garçom. Eu nunca mais voltei...”.

Eu olhei pra ele sem saber se sentia pena ou não. O melhor que eu pude fazer foi abrir o mapa de novo e dizer: “se São Paulo estivesse neste mapa, Araraquara seria mais ou menos aqui”. E indiquei um ponto imaginário, cuja distância até o risco que circulava Januária deveria ser de umas duas réguas de trinta centímetros.

Voltei para o hotel com essa história na cabeça. E quando cheguei à recepção, encontrei o velhinho de boina cantando “Ó jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu?...”.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

DIA 08

Ele se chama Telêmaco, usa dois brincos prateados em cada orelha, veste uma camiseta laranja onde se lê “é melhor ser doido do que ficar louco procurando juízo”, e se parece com o José Genoíno dez quilos mais magro.

Telêmaco nasceu em São Romão e partiu de lá aos dezesseis anos. Viveu em Montes Claros, Belo Horizonte, Salvador, São Luis e Brasília. Viajou de carona por todos os estados do Nordeste até chegar ao norte do Piauí. E, no meio disso tudo, trabalhou no Bemge, pintou camisetas no Pelourinho, fez cursos de artes plásticas no MAM, arrumou uma mulher, teve dois filhos, e foi trocado por um representante comercial.

Mas agora Telêmaco está de volta e me recebe em sua casa ao som de Belchior. Ele me leva até uma salinha bem rústica, me aponta um sofá e se senta num banco feito de garrafas PET recicladas. Eu ligo a câmera e ele começa a contar um pouco da história desta velha cidade de 341 anos.

E antes que eu diga o que o Guimarães Rosa, um milionário pedófilo e um vapor do Mississipi têm a ver com isso tudo, eu vou explicar como eu cheguei até o Telêmaco.

Quem desce da balsa de São Romão encontra uma orla decadente formada por meia dúzia de construções com vidros quebrados e tinta gasta. A aparência melhora depois de uma esquina, onde uma avenida brota do rio e se estende perpendicularmente a ele, com seu calçamento de paralelepípedos e enormes palmeiras imperiais nos canteiros. Bem no comecinho dessa avenida, há uma pequena praça, dois botecos e uma padaria de cá, e outro boteco e uma pizzaria de lá.
Se o visitante virar logo à direita, ele vai se enveredar pela parte antiga de São Romão, com duas ou três ruas estreitinhas, uma igreja bi-centenária e o casarão da Casa de Cultura. Se o hipotético turista não virar à direita, e preferir seguir pela avenida, lá pra frente ele vai encontrar uma cidade empoeirada, quente, meio amarela, que termina bruscamente logo após o cruzamento com outra avenida, onde há um enorme descampado com uma rodoviária no meio.
A cidade é pouquinha coisa maior que Ibiaí, mas muito diferente, e não só pelos anos de vida. Em São Romão parece não existir a inocência de Ibiaí, lugar em que até a prostituição das menininhas anda de mãos dadas com a ingenuidade. Há mais carros com placas de grandes cidades, há mais comércio e serviço público e há uma conexão maior com o mundo de fora. E não sei se isso é uma virtude. Porque, pra mim, São Romão é uma cidade que era pra ter sido e não foi...

Isso tudo eu fui descobrindo aos pouquinhos. Primeiro, eu avistei uma padaria bonitinha no início daquela avenida. A padaria destoava do comércio local e pertencia a um casal de irmãos que juntou dinheiro durante cinco anos de trabalho em Londres e depois voltou pra montar o negócio na cidade natal. A dona, eu não conheci; o dono, vestia uma camisa do Arsenal, cafungava feito um cocainômano e era a cara do Felipe Massa. Chamava-se Jair e gostava de falar mais de Londres do que de São Romão. Mas pelo menos ele me disse que havia por ali um sujeito que pintava quadros e entendia das coisas. Apontou para a casa da esquina, onde mora Telêmaco.

E assim voltamos para a salinha rústica de paredes de barro bem pintadas de branco, onde estávamos a ponto de ouvir Telêmaco contar um pedaço da história de São Romão.

Ele guarda vários mapas, ilustrações e anotações sobre o passado de sua cidade. E sabe que o município desempenhou um papel importante na colonização do interior do Brasil – e depois nas relações comerciais entre as regiões – já que sua localização privilegiada, no entroncamento de vários rios, fazia de São Romão um ponto de passagem de muitas embarcações. Inclusive o lendário Benjamim Guimarães, um vapor que chegou ao São Francisco no início do século passado vindo direto do Mississipi, e que navegava entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia. Este barco ainda resiste, e de vez em quando atraca em São Romão, chegando de Pirapora num passeio turístico.

O vapor não é o único Guimarães ligado à biografia local. Há também o Rosa. As veredas eternizadas em seu “Grande Sertão” ficam alguns quilômetros a noroeste de São Romão. Telêmaco diz que as comitivas de gado de Manoelzão e companhia costumavam parar na cidade para dormir num prostíbulo de fama histórica.

Aliás, a prostituição é um ponto negativo e evidente em São Romão. Se você está aqui numa noite qualquer, e não está sofrendo com um jogo de futebol que assiste numa televisão de quatorze polegadas, você pode correr os olhos pelas bordas da pracinha central e perceber pelo menos meia dúzia de garotas a espera de uma turma de pescadores de Marília, Uberaba ou de qualquer outro lugar.

Essa cena se repete em quase todas as pequenas cidades às margens do São Francisco. O que as outras cidades nunca tiveram, e São Romão já teve, é um fazendeiro milionário tarado em adolescentes virgens. Telêmaco comenta que a obsessão do senhor Antônio Luciano Pereira Filho estimulou muita prostituição em São Romão. O que ele também fazia em Belo Horizonte, onde era dono de metade dos imóveis do centro, ganhou fama e acabou virando personagem na minissérie “Hilda Furacão”. Ele morreu aos 93 anos, com 32 filhos, muita terra, muito dinheiro e duas mil ex-virgens no currículo. Há quem diga que ele engravidou uma de suas próprias filhas, sem saber o que fazia...

Telêmaco conta todas essas histórias de um jeito de quem já contou várias vezes. E sempre com um tom crítico, o mesmo que ele mantém em relação a quase tudo na cidade que ama. O povo preguiçoso, as intrigas da política, as fofocas, etc.

Depois de passar trinta anos numa vida de aventuras, errância hippie e alcoolismo, hoje Telêmaco parou de beber, está casado, com aliança no dedo e tudo, e seu maior sonho é ser pai de novo, aos cinqüenta anos, assim que terminar de reformar a casinha que comprou há um ano.

Quando eu me despedi dele, após uma hora de histórias, saí com a impressão de que, se ele não existisse, eu precisaria inventá-lo como personagem.

E então eu embarquei na balsa novamente e, pra evitar problemas, preferi percorrer os cento e dez quilômetros de asfalto, a me arriscar nos cinqüenta e três de terra.

No trajeto rumo a São Francisco, eu fui relembrando todas as coisas que eu vi e ouvi na cidade cheia de passado que eu acabava de deixar. E cheguei à conclusão de que, mesmo que eu tivesse visto prostitutas de fraldas e pingüins tomando sol às margens do rio, minha lembrança mais forte de São Romão continuaria sendo a de um silêncio imprevisto ocupando o espaço reservado para a felicidade: São Romão será pra mim, acima de tudo, o lugar onde vi o Cruzeiro desperdiçar uma Libertadores dentro de um Mineirão azul; onde assisti ao jogo
no bar de um bocó sorridente que fez questão de me dizer que seu apelido era Galoucura.

E segui pra São Francisco...

quinta-feira, 16 de julho de 2009

DIA 07

Acho que hoje eu me arrisquei na maior aventura desta viagem até o momento. Olhando agora, pelo retrovisor, até parece moleza, mas as coisas não foram tão fáceis assim enquanto eu estava lá embaixo do sol, perdido num ponto fora do mapa, sozinho com um carro mil, duas garrafinhas d'água e uma caixa de chocolates Garoto.

Antes disso, porém, o dia começou tranqüilo como um dia de férias. Acordei cedo, peguei uma cadeira emprestada no "Bar Casarão", desci até a praia e - com os pés fincados na areia e a barriga de fora - curti o sol e curti o Garcia Márquez e seu "O Amor nos Tempos do Cólera". Uma turminha adolescente jogava futebol logo atrás, uma família pequena tentava pescar bem a minha frente, um casal de namorados passou de mãos dadas.

Uma hora depois eu estava numa salinha apertada que parecia um corredor, diante do Geraldo Eustáquio e de seu amor comprometido por Ibiaí. O oficial administrativo da prefeitura é daquele tipo de homem que consegue ser magro e barrigudo ao mesmo tempo. Ele abotoa só os botões debaixo da camisa e, enquanto a gente faz perguntas, ele fica colocando a ponta da língua pra fora e dizendo "perfeito, perfeito...".

Como fonte de pesquisa, o bate papo foi excelente, mas não produziu assim nenhuma pérola. E, no final das contas, acho que o Geraldo Eustáquio só aparece nestes parágrafos por causa do José Vieira, que me foi apresentado por ele durante aquele conversa e de quem, logo depois, ouvi um punhado de boas histórias de pescador.

José Vieira, na verdade, era José Vieira só lá em Belo Horizonte, de onde veio há vinte e quatro anos. Em Ibiaí, ele só atende pelo pitoresco apelido "Zé de Nóis".

Com aquela pele curtidade quem vive sob o sol e duas ou três rugas tão bem marcadas que parecem esculpidas, o Zé de Nóis conta suas histórias com a voz de um locutor de rádio. E isso não é por acaso. Ele, que já foi pedreiro e depois mestre-de-obras na Globo de BH, queria ser repórter de campo. Chegou a passar num teste na rádio Globo, e só não foi contratado por causa de um boicote de seu chefe invejoso. Então, em vez de brigar e se estressar, preferiu seguir o que diz o ditado popular e foi pescar. É o que faz há duas décadas e meia.

Nesse tempo todo, acumulou histórias e experiência. Ele é capaz de explicar com precisão, por exemplo, como se faz para pescar um surubim no fundo do rio usando uma pedra, uma bóia, duas cordas resistentes, um anzol e uma traíra. E fala também do projeto "Peixe, Pessoa e Água" e de suas ambições políticas - ele é fundador do PT em Ibiaí.

Mas, como todo pescador, ele é bom mesmo é pra contar histórias. Entre as muitas que contou, está a noite em que pescou tanto surubim que teve que devolver alguns pro rio, e a tarde em que foi surpreendido por uma onça enquanto pegava minhocas e só se salvou por causa de um mosquito.

Depois de quase uma hora de prosa, eu me despedi dele, organizei minhas malas, paguei a conta do hotel e tomei a decisão que poderia ter levado a vaca pro brejo. Foi assim...

Eu comentei com o dono do hotel, o seu Manoel, que eu estava saindo para a cidade de São Francisco e que, por segurança, iria pelo caminho mais longo, que é o único asfaltado. Isso significava retornar para a BR-365 e acrescentar cento e vinte quilômetros a uma viagem que poderia ser vencida em apenas cento e cinqüenta, caso a estrada escolhida fosse a de terra. O seu Manoel - que tem um nariz enorme e não tem os dentes debaixo - disse que seria uma besteira dar essa volta.

"Tem certeza, seu Manoel?". "Tenho". "Mas a estrada está boa?". "Às vezes, sim, às vezes, mais ou menos". "E tem sinalização?". "Tem". "E eu consigo com um Gol?". "Claro, uai". Então, tá.

Para não prejudicar o carro, eu pretendia andar a uns trinta quilômetros por hora, o que me obrigaria a ficar quase cinco horas na estrada de terra. Como eu não estava com pressa, e como eu sou um besta curioso, lá fui eu...

Antes de sair, passei no "Bar Casarão" para tirar uma fotografia da Fabiana, como eu havia prometido a ela ontem. Mas ela não estava lá, e eu tinha muito chão pela frente. Não esperei. Coitada da Fabiana: por causa da foto, ela tinha me dito na véspera que viria trabalhar de maquiagem.

Os primeiros trinta quilômetros foram relativamente tranqüilos, já que a estrada que liga Ibiaí a Ponto Chique está em obras para ser asfaltada em breve. Grande parte do trecho pode ser considerada quase um tapete de terra, e há muita gente trabalhando ao longo da estrada. Se eu buzinasse, com certeza alguém ouviria. A partir daí, porém, foi mais difícil.

Ao contrário do que o seu Manoel me disse, há apenas uma placa em toda a estrada. Além disso, durante muitos e muitos quilômetros, não se via uma alma viva ou morta (sem contar a minha). Pra piorar, duas encruzilhadas mudas e ingratas. Na primeira, tomei o caminho da esquerda, na segunda, o da direita, seguindo um bom senso meio duvidoso. E toquei em frente.

Por duas horas e meia, rodei por estradas de terra largas e arejadas, por estradas de terra estreitas e cobertas por árvores, por estradas de terra que poderiam ser chamadas de estradas de areia, por estradas de terra vermelha e terra amarela. Cruzei algumas vacas, um cachorro e nenhuma pessoa. Passei por currais vazios, por uma vendinha fechada e por uma casa onde se lia na parede "Guilhermão 45.444".

O sol começou a alaranjar o céu e eu já não tinha certeza do caminho há pelo menos uma hora, quando uma estrada de asfalto caiu no meu colo. Uma placa dizia que a cidade de São Romão estava a oito quilômetros. Uma segunda placa acrescentava que, para São Francisco, era preciso pegar outra estrada de terra por mais cinqüenta e três quilômetros.

Decidi mudar os planos e antecipar o pouso. Cheguei a São Romão depois de um trecho de quinze minutos de balsa. Minha primeira impressão?

Se você pegar uma cidadezinha de beira de rio e misturá-la com uma cidadezinha histórica que não deu certo, e se você colocar aí umas pitadinhas de vila de faroeste, a chance do resultado disso tudo ser São Romão é bem grande.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

DIA 06

Uma cidade bem pequenininha, às margens do São Francisco, que vive da pesca e de um turismo incipiente, onde é possível enxergar o espelho do rio de um banco da praça e onde a pobreza se traduz em simplicidade, não em miséria. Esta era a cidade que eu procurava há tanto tempo. Assim Ibiaí me pareceu logo que entrei aqui ontem. E assim ela me parece hoje, depois que a conheci melhor.

A orla se estende por não mais de um quilômetro, onde há uma avenida bem asfaltada enfeitada por uma fileira de palmeiras. Na calçada, pra quem não tem pressa, é possível se sentar em um dos muitos bancos de tijolo aparente, sob árvores baixinhas, e ficar mirando o rio, a faixa larga de areia e a mata do outro lado da margem.

A paisagem não merece uma capa de revista, mas é de uma beleza genuína e discreta, aquela beleza com a qual convivemos naturalmente no dia-a-dia, que nos agrada sem nos fascinar.

No meio da orla, numa esquina da avenida, a pracinha central de Ibiaí descansa preguiçosa. Há um coreto ordinário, variadas árvores de pouca sombra e canteiros bem cuidados. Ao redor, dois hotéis simples; o mercadinho “Pais e Filhos”; a única construção histórica da cidade, onde há um bar quase muito gostoso chamado "Bar Casarão"; e mais algumas lojinhas com fachadas pintadas a mão. Estão ali também a igreja – discreta, num canto, coadjuvante –, a casa lotérica e a agência do Itaú. E, por fim, a prefeitura, minúscula, onde entrei pedindo licença e com uma insuportável dor nas costas.

Depois de explicar o que me levava ali, a recepcionista me encaminhou até o Geraldo Eustáquio, que é oficial administrativo e conhece bastante a cidade. Marcamos de bater um papo amanhã cedo, já que ele estava saindo às pressas para uma reunião. Por enquanto, o que pude descobrir na prefeitura foram três coisas importantes: a prefeita e a vice-prefeita são mulheres, a recepcionista usa um decote generoso e se parece com uma atriz gordinha da Globo, e na sala de espera há um relógio verde-limão da Imaginarium.

Saí de lá, passei no “Hotel Beira-Rio” – onde havia me hospedado na véspera, pagando vinte reais por um quarto com cama de casal – e fui curtir minha dor nas costas num banco da praça.

Caso um dia você queira vir à Ibiaí, vou te contar o que você vai ver se estiver sentado na praça, no meio de uma tarde quente, sem nada a fazer além de observar.

Algumas pessoas de bicicleta e outras se protegendo do sol com sombrinhas. Meia dúzia de carros por minuto, no máximo. Silêncio. Motos. O reflexo do sol no rio verde. Um hippie perdido vendendo pulseirinhas de couro. Dois pedreiros, um monte de tijolos e uma muretinha em construção. Três pescadores carregando remos enormes. E cinco varredoras de rua varrendo uma praça que é menor que a metade de um campo de futebol.

Você verá também, lá na esquina de frente para o rio, aquele bar quase muito gostoso, que fica numa casa antiga toda verde, em que as janelas são cor de laranja e os beirais, violetas. Se entrar no bar, você notará um pôster do Elvis Presley e, atrás do balcão, a Fabiana, uma jovenzinha cuja história curta já daria um livro. E talvez um dia dê mesmo.

Como eu já tinha estado ali ontem, não foi estranho a Fabiana me trazer uma Skol e ficar em pé ao lado da mesa, ensaiando um começo de prosa. Eu silenciei, enquanto ela falava sobre a festa “Garota Raio de Sol”, sobre os afogamentos no rio e sobre o que fazem os jovens de Ibiaí numa noite de segunda-feira. E quando o orelhão da esquina tocou e ela foi atender, eu fiquei sozinho pensando na história daquela loirinha sorridente que tem uma fada tatuada nas costas.

Fabiana estudou até a oitava séria e depois se mudou para Belo Horizonte, naquele movimento óbvio de quem não tem nada e parte rumo a um sonho tão bonito quanto ingênuo. Lá ela morava com a prima, dançava forró no Alambique e queria um dia ser jornalista. Mas no meio do caminho tinha um rapazinho, uma gravidez e um celular que permaneceu desligado durante as duas semanas em que ela telefonou repetidas vezes.

E como a vida é irônica e trágica em proporções idênticas, e há na bomba sempre um silêncio reconfortante antes da explosão, Fabiana conheceu um homem onze anos mais velho que não se assustou com sua barriga de cinco meses. Ele se chamava Airton, tinha um cavanhaque, um terreno em João Monlevade e uma moto. E morreu num acidente na Via Expressa no dia em que trocaria alianças com Fabiana.

BH se tornou grande demais, e então Fabiana voltou para o interior. O filho recém-nascido se mudou pra Pirapora junto com sua mãe e seu padrasto. Ela permaneceu em Ibiaí, porque o salário de empregada doméstica lá é menor que os ganhos aqui, como garçonete no bar da tia. Fabiana ficou, mas não desistiu.

Ela reaparece de dentro do bar e traz um álbum de fotografias. “Eduardo, você quer ver minhas fotos?”. Vejo o filhinho de fraldas; um garotinho do Belvedere, de quem fora babá; o Airton segurando um capacete; ela aos oito, ela aos quinze, ela aos vinte e três. Tudo ali, organizado com carinho numa desordem danada.

Minhas costas continuam doendo, e quando acabo de folhear as fotos, noto que Fabiana já está sentada ao lado. Ela pega o álbum da minha mão e pergunta se conheço Arcos. Digo que passei pela cidade alguns dias atrás. E ela me fala que seu namorado mora lá. Namorado? Tão longe assim? “Ele esteve aqui dois meses atrás e a gente começou a namorar. Eu ainda não decidi se quero namorar, mas ele já disse que quer. Na verdade, eu queria mudar com ele pra BH e voltar a estudar... Quem sabe, né?”. Quem sabe...

Chega uma Kombi do DER-MG, da qual saltam quatro funcionários uniformizados. Fabiana se levanta para atendê-los e, antes de se afastar, deixa o comentário como quem deixa um copo sobre a mesa: “o único problema é que ele é casado...”.

Eu a observo servir uma cerveja aos quatro fregueses. Ela sorri, como sempre. E eu tenho a certeza triste de que ela jamais sairá daqui. Viro a cadeira para o lado da orla e vejo que o rio está completamente escuro. Talvez fosse possível ouvi-lo correr, se o som da Kombi não gritasse uma música do “Jorge e Matheus”.

Pago a conta e saio à procura de uma farmácia. Eu preciso de um Dorflex.

terça-feira, 14 de julho de 2009

DIA 05

Se você está em Pirapora e quer descrever a cidade, você pode falar das carrancas e da tradição dessas esculturas de madeira que eram usadas antigamente nas proas dos barcos do São Francisco para espantar os maus espíritos das águas com seus olhos arregalados, orelhas pontudas, caninos enormes e língua pra fora.

Se você pretende enriquecer seu texto, você pode incrementar essa descrição com a história do seu Laerte, um artesão que morava numa rocinha em Brasília de Minas e fazia peixes de barro, até uma tarde de fins de abril, em 1976, quando ele avistou uma carranca ao descer o rio de mudança para Pirapora. Em vez de espanto, ele se fascinou com a imagem e acabou se tornando um grande escultor de carrancas.

Você pode dizer também que ouviu essa história do filho do seu Laerte, o Adão Santos, que aprendeu o ofício com o pai, ainda aos vinte anos de idade, e hoje, aos 53, é um dos artesãos que compõem a associação de carranqueiros de Pirapora. Ele faz carrancas pequenininhas ou de até dois metros de altura. Os preços variam de quinze reais a mil e quinhentos reais. Você pode dizer que comprou uma de quinze reais.
Se você está em Pirapora, você pode falar também da colônia de pescadores, falar do politiqueiro pescador Pedro Melo, das técnicas de pesca do surubim, do dourado e da piranha. E pode falar da antiga ponte de ferro, da vizinha cidade de Buritizeiro e do sorvete de ameixa que você tomou numa manhã bem cedinho.

Se você está em Pirapora, e é curioso e observador, há muito, muito mesmo o que dizer. Mas se você está triste, triste como um domingo de chuva, não faz sentido algum falar sobre qualquer coisa. Seria como usar óculos escuros para esconder olhos marejados. Ou como tocar violino enquanto o barco afunda.

Por isso mesmo você sai às pressas de Pirapora, porque não há lugar melhor para se ficar triste do que dentro de um carro, sozinho, a quase mil quilômetros de distância de casa.

Você retoma o trajeto rumo ao norte, com destino a Ibiaí. E nota que o asfalto exemplar continua contradizendo a má fama das estradas mineiras; e o mato seco e monótono parece querer invadir aquelas retas longas; e o Renato Teixeira te coloca melancólico como o diabo. E você pensa no tempo, no antes e no depois, e você pensa nas horas.

Mas aí, porque a vida ainda consegue ser generosa, você vence o trevo de Ibiaí, avança alguns metros, encara a cidade nos olhos e não tem a menor dúvida de que acaba de encontrar aquilo que você procurava há mais de dois anos...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

DIA 04

Hoje eu acordei às seis horas da manhã com o barulho agradável de dezesseis patos fazendo algazarra bem embaixo da janela do meu quarto. Se você não consegue imaginar a chatice do som que um pato produz quando quer acordar alguém, lembre-se do latido de um cachorro teimoso e multiplique por vinte.

Por incrível que pareça, isso não foi o suficiente pra fazer com que eu acordasse de mau humor. A charmosa Pousada da Tia Dora e a simpatia da dona e de seu marido, o seu Lúcio, compensaram o coral de patos.

Eu cheguei lá ontem, já de noitinha, depois de atravessar de balsa a Represa de Três Marias. Na travessia, tinha conhecido dois camaradas bons de papo com quem fiquei jogando conversa fora durante os trinta minutos de navegação. O primeiro deles, o Renato, é técnico da Oi Celular e tem aquela voz de quem fuma muito. Do que ele falou – e ele falou bastante – ficou o seguinte: Diamantina é a melhor cidade do mundo e Cordisburgo não tem nada que presta.

O segundo companheiro de balsa, o Denis, um moreninho bem-humorado de uma cidade chamada Pintópolis, me disse que Pirapora era mais perigosa do que a Faixa de Gaza.

Mas isso tudo não vem ao caso. O fato é que cheguei de noitinha na cidade de Três Marias e não vi muita graça naquilo ali. Achei melhor andar mais meia dúzia de quilômetros pela BR-040 e me arriscar na pousada que se anunciava numa placa vistosa bem no trevo da cidade. Valeu a pena.

Apesar de simples, a Pousada da Tia Dora coleciona qualidades. Pra encurtar a descrição, vale dizer que tem quase tudo o que um turista paulista imagina quando pensa em “pousada de Minas”. Pão de queijo e quitutes no café da manhã? Tem. Trilhazinha de pedras entre riachos e árvores? Tem. Rede na varanda? Tem. Pato? Tem também. Dezesseis.

Hoje cedo, me sentei diante do seu Lúcio e bati um longo papo. Nessa prosa, ele me contou como ele e a esposa criaram em 1969 uma agência de turismo em Belo Horizonte pra levar adolescentes à Disneylândia. E como a agência cresceu e possibilitou que ele conhecesse o mundo. E como pescar surubim no São Francisco é mais divertido do que acompanhar vinte e uma jovenzinhas mimadas pelas ruas de Londres.

Por isso, diz Lúcio, a partir da década de 70, começou a freqüentar cada vez mais a cidade de Três Marias para pescar ao lado dos filhos. Com o tempo, comprou um terreno às margens da rodovia, bem pertinho do rio. Mais um tanto de anos, construiu uma casa ali. Depois, outra. E, em 1989, a pousada estava criada, assim de um jeito quase sem querer. Hoje, ele mora lá com a esposa que empresta o nome ao empreendimento.

Lúcio fala pausado, num português exemplar, e tem aquele timbre de voz que acalma o interlocutor. Parece feliz e quer continuar melhorando a pousada. Antes d’eu ir embora, ele me pediu para acompanhá-lo até a piscina. Lá, ele ligou uma espécie de cachoeirazinha artificial que cai sobre a água, e ficou observando aquilo todo orgulhoso.

Boa gente, o seu Lúcio.


Parti.

Mais 170 quilômetros e cheguei a Pirapora, cidade importante da região do São Francisco, que tem 50 mil habitantes, uma orla extensa, ao estilo de cidade praiana, muitos turistas pescadores e não é mais violenta que a Faixa de Gaza. E tem também orelhões em formato de surubim e cruzeirenses e atleticanos fanáticos. Aqui, até as menininhas bonitas vestem camisetas dos times.

Cheguei e fui direto almoçar no “Restaurante Egnaldo”, que é enorme, movimentado e fica de frente para o rio. Destaque do Guia 4 Rodas, o restaurante é bem apresentável, mas não tem nada demais, além de boa comida e preços de capital: um peixe completo, para duas pessoas, sai por R$ 80,00. Fiquei por ali reparando os clientes e as coisas.

No estacionamento em frente à varanda do “Egnaldo”, enfileiravam-se caminhonetes grandes com placas de Belo Horizonte. Aliás, metade dos fregueses parecia ser de lá. A outra metade, uma óbvia e simpática elite provinciana. Ali, se ouvia frases do tipo: “ele passou no concurso pra promotor ante de mim”, ou “a turma da academia vai participar da maratona semana que vem”, ou “você acredita que depois daquilo eu ainda a vi no Diamond?”.

Comi. Paguei. Perguntei: “onde é bom para se assistir ao jogo aqui em Pirapora?”. “No Kaka’s Bar e Churrascaria”. Fui pra lá.

Como o restaurante, este bar também fica na orla e também é enorme. Às quatro em ponto, provavelmente 300 ou mais pessoas torciam ali dentro, vidradas no telão. Repetindo o almoço, fiquei bebendo uma Brahma e observando. Aqueles jovens “classe média” – alegres, falando alto, de copo na mão – me pareceram ao mesmo tempo tão peculiares e tão idênticos a todos os outros...

Depois do jogo, o sol desceu amarelo dentro do bar, de um jeito exagerado que parecia mentira. Fui procurar um hotel e, para fugir do caro “Canoeiros”, encontrei este aqui, cujo quarto, além de minúsculo, tem o formato de um triângulo.

Hoje à noite, há duas atrações na cidade: uma micareta e um arraial cristão. Como se vê, estou bem servido. Se eu demorar mais de três dias pra atualizar o blog, por favor, alguém chame a polícia...

sábado, 11 de julho de 2009

DIA 03

Você pode descrever Lagoa da Prata de diversas maneiras. Por exemplo: cidade de 40 mil habitantes localizada no centro-oeste mineiro, a oito quilômetros do Rio São Francisco. Ou então: cidade turística com uma enorme lagoa urbanizada que se espalha pelo centro do município. Ou ainda: a sede da indústria de laticínios Embaré, empresa relativamente pujante e orgulho dos moradores locais.

Eu prefiro descrever Lagoa da Prata como a “Capital Nacional dos Rifeiros”. Isso mesmo: “Rifeiros”. E não fui eu que inventei isso.

O esquema, que já foi uma das principais fontes de renda da cidade, funciona assim: o sujeito vai até o Paraguai, compra mil relógios, ou coisa parecida, pega um ônibus, vai pingando em diversas cidades do Brasil e distribuindo as cartelinhas de rifa para contatos pré-estabelecidos. Um mês depois, o sujeito retorna à cidade, recolhe a cartelinha vendida e a grana arrecadada, realiza o sorteio, entrega o prêmio ao sorteado – neste caso, o relógio do Paraguai – e paga o vendedor local com outro relógio. E vai fazendo isso por tudo quanto é canto.

Esta prática pode ser verificada por aqui até hoje, embora em menor escala. Quem conta isso é Jordan (pronuncia-se Jordán), recepcionista do hotel onde me hospedei. Ele afirma que a fama de “Capital Nacional dos Rifeiros” vem de longa data e já rendeu até reportagens na TV. E diz tudo isso com conhecimento de causa: seu primo foi preso onze anos atrás em Curvelo, ao tentar vender uma rifa para a esposa de um sargento. Como se sabe, o mercado de rifas está às margens da legalidade...

Mas Lagoa da Prata não se resume a isso. Tem também, por exemplo, uma inusitada fábrica de ursinhos de pelúcia e a tal lagoa que empresta o nome à cidade. A lagoa é enorme e parcialmente circundada por uma praia de areia. Há coqueiros, muitos banquinhos, uma quadra de peteca e um barzinho. Quem me deu mais informações sobre o lugar foi o salva-vidas Lúcio. Ele disse que, apesar de não parecer, a lagoa é natural e tem mais de dez metros de profundidade; comentou, orgulhoso, que no verão ela fica cheia de turistas da região, que pagam dez reais pra entrar e usufruir do espaço. Confessou também que ultimamente um ou outro banhista tem sido atacado por peixes “cavaquinhos”. Apesar do apelido inofensivo, eles são primos das piranhas. Ninguém se machucou com gravidade até agora.

O salva-vidas Lúcio tem quase cinqüenta anos e se parece com um dono de mercearia, ou um vendedor de redes, ou um amolador de facas. Menos salva-vidas.

Saí da lagoa e fui para a praça central da cidade. Uma pracinha movimentada, rodeada de muitas e diversificadas lojas, e da qual brota a Avenida Brasil, a principal de Lagoa da Prata, onde há muitos postos de gasolina, muitas vitrines, muitos semáforos e muito barulho. Quase uma cidade grande. Não tinha mais porque ficar ali.

Antes de ir embora, porém, venci oito quilômetros de estrada de terra, sempre cercado de cana-de-açúcar, e me encontrei com o São Francisco, que corre por baixo de uma ponte de ferro tão velha que chega a dar medo. Não há exuberância alguma, o que justifica o papel coadjuvante que o rio desempenha na vida de Lagoa da Prata, onde o papel principal cabe mesmo à lagoa central. O rio é apenas para pescadores locais. Parti antes do almoço e subi quase uns 400 km do mapa de Minas. Passei por Bom Despacho – uma organizada e desenvolvida cidade de porte médio que me surpreendeu bastante – e depois por Martinho Campos – um pequeno município bem plano onde há muito vento, muita poeira, muito buraco no asfalto e uma loirinha bonita.

Abaeté, Paineiras, Bocaina, Biquinhas, Morada Nova de Minas. Nesta última cidade, que está numa península da Represa de Três Marias, me enveredei por uma longa estrada de terra em direção ao porto onde se pega uma balsa rumo à cidade de Três Marias. Azarado, cheguei dez minutos depois da balsa ter partido. Resultado: duas horas e meia de espera até a próxima balsa. Pra matar o tempo, fui até o bar do Ismael, que fica ali ao lado do embarque, e lá comi um tucunaré e ouvi um pedaço da história de vida do comerciante.

O bar estava vazio. O Ismael se aproximou com aquele sotaque de belo-horizontino e me ofereceu um tucunaré com salada. Aceitei. Demorei cinco segundos para convencer o vaidoso Ismael a dar uma entrevista bem rápida. Câmera ligada, ele começou a falar. Era motorista de ônibus na capital do estado. Um dia, durante uma excursão, conheceu a Represa de Três Marias e não teve dúvidas: pediu demissão, vendeu o carro, vendeu a casa e veio de mala e cuia com a esposa e a filha. Mais dois canarinhos e dois cachorros, a Raíssa e o Pingo. Comprou o bar, aprendeu a pescar e transformou sua vida.

Isso foi há oito anos. De lá pra cá, Ismael já saiu na coluna social do jornalzinho de Morada Nova, já viu caminhonete com passageiro cair da balsa dentro da represa e já encontrou um morto boiando na margem. Aliás, esse episódio quase lhe rendeu uma prisão, já que Ismael precisou laçar o corpo para tirá-lo da água, o que, segundo a Justiça, configurou adulteração da cena do crime. Ou algo parecido. O fato é que, até Ismael provar que focinho de porco não era tomada, foram bem uns quinze meses.

Depois que a breve entrevista terminou, ele me pediu pra passar o arquivo do vídeo para o computador dele. Obedeci. Enquanto eu almoçava o tucunaré, ele assistiu a sua própria entrevista pelo menos quatro vezes. Detalhe: o áudio do computador estava conectado às caixas de som do bar, o que significa que almocei ao som da entrevista.

A balsa das 16h20 já se aproximava. Paguei a conta. Bati uma foto do Ismael e de sua esposa Piedade. Ao sair do bar, um casal que entrava cruzou por mim e foi recebido com entusiasmo pelo comerciante. Enquanto eu dava marcha à ré no carro, ouvi o Ismael dizer para os amigos: “vocês precisam ver a entrevista que eu acabei de dar...”.

Manobrei o carro dentro da balsa. A minha frente, mil e quarenta quilômetros quadrados de água dourada pelo generoso sol poente. Mais adiante, um pedaço de Brasil a ser descoberto...

DIA 02

Imagine um arranha-céu com dimensões nova-iorquinas. Imaginou? Coloque-se, então, bem debaixo do edifício e depois olhe pra cima. Sinta a vertigem provocada pela altura do prédio. Agora, num exercício de liberdade criativa, imagine todas as toneladas de concreto desta construção se transformando em milhões de litros de água. Conseguiu enxergar a cena? Pois bem, exceto a parte da transformação mágica, o restante ilustra direitinho a impressão e o impacto que a Casca d’Anta provoca em quem se posta diante dela, num rincão do Chapadão da Zagaia, na Serra da Canastra mineira.

Com 186 metros de queda d’água, esta cachoeira é a primeira e a maior do Rio São Francisco. Para chegar até ela, você precisa ir até a cidadezinha de Vargem Bonita, muito próxima de São Roque, de lá pegar uma estrada de terra de mais ou menos 25 quilômetros e, finalmente, caminhar por uma trilha de quase dois quilômetros. Foi o que fiz hoje, logo cedinho.

Durante a trilha, já é possível ouvir a cachoeira se espatifando barulhenta num pequeno poço de água azul. Aos poucos, entre as árvores, ela começa a ser avistada. E quando chegamos ao primeiro mirante, a Casca d’Anta se mostra majestosa, exagerada e inquestionável. Seguindo em frente mais alguns metros, dá pra ficar quase embaixo dela, de onde se elimina qualquer dúvida de que estamos diante de um troço que não vai mais sair da lembrança. É preciso erguer bastante a vista pra enxergar de onde cai todo aquele aguaceiro. Ao lado da queda, um paredão enorme e vertical, que nos apequena a proporções de playmobil.


Eu não sou desses que se deslumbram facilmente com a natureza, mas devo reconhecer que a Casca d’Anta passou uma rasteira na minha porção blasé. Fiquei ali parado, sozinho, por quase meia hora. Pensei, fotografei, e tive vontade de compartilhar aquilo com outras pessoas. Eu me lembrei do escritor Bartolomeu Campos de Queiroz, que nos disse numa entrevista que a beleza pode ser traduzida como aquilo que não suportamos ver sozinho. É isso mesmo.

E, depois de um tempo, chegaram alguns turistas de Bauru. Oi, tchau.
Na volta, venci os 25 quilômetros de terra a 20 km/h. À esquerda da estrada, o paredão cinematográfico da serra me acompanhava em silêncio. Algumas pousadinhas simples distribuídas ao longo da margem. Lá pra frente, uma vendinha daquelas bem fuleiras. Parei pra tomar uma Coca Zero e lá encontrei o Xisto. Vocês tinham que conhecer o Xisto.

Eu estava lá sentado com meu mapa e minha Coca Zero. De repente, dois bêbados vão se aproximando, puxando papo e, num piscar de olhos, já estavam sentados na minha mesa. Ok. Vamos tirar algo de proveitoso disso. Saquei a câmera fotográfica e comecei a conversar. Um deles, o Xisto, era todo prosa. O outro, o Elias, estava receoso: fez mil perguntas, fez cara feia e fez questão de dizer que não era bandido. Não dei muita bola e engrenei um papo com o Xisto.

Sessenta anos, aparência detonada, roupas puídas, chapéu na cabeça, fala enrolada e um par de olhos verdes desperdiçados. Xisto tem uma rocinha ali perto, onde planta e colhe para a própria sobrevivência. Planta feijão, milho, um pouco de café. Não tem nenhuma vaca. Vive assim. Nunca se casou e nunca teve filhos. Pouco a pouco, a prosa flui. Ele encara a câmera com fascínio. Pergunto como é seu dia, e ele responde quase em tópicos: “acordo cedo, faço café, capino, planto, de vez em quando, colho...”. E o que ele vai fazer hoje mais tarde? “Lavar minha roupa”. E o que ele faz quando não está trabalhando? “Se estiver chovendo, eu durmo...”. Ele não tem TV em casa. Ele não tem nada.

Durante 15 minutos, eu estive com ele, e o que dele ficou em mim foi a certeza de que Xisto vive um eterno presente, em que é capaz de enxergar e tocar apenas o pedaço de mundo que alcança com os braços. Um esqueleto de gente, aquilo que sobra depois que a vida e o mundo nos roubam os detalhes e acessórios que nos fazem humanos.

Enquanto isso, o Elias ia e vinha, sempre praguejando e comendo uma maçã que vez ou outra cuspia em cima da mesa. Fiquei com ojeriza dele. E, depois, me vinguei...

Fui até o balcão, paguei a Coca Zero e comprei duas doses de pinga. Levei a primeira pro Xisto e a entreguei em mãos. Disse pra ele: “tem mais uma dose paga pra você. Se quiser dar pro seu amigo, pode dar. Mas é você que decide”.

Antes de sair, e antes que ele esboçasse qualquer reação, perguntei qual era seu maior sonho. Com o copo de pinga na mão, ele me respondeu: “Viver”. Simples assim.

Segui viagem.

Muitos quilômetros depois, troquei de estrada no trevo de Pimenta e, mais adiante, cruzei Pains, cidadezinha que se intitula a “Capital Mundial do Calcário”. Na seqüência, passei por Arcos, que é maior e onde se nota intensa circulação de caminhões e inúmeros e enormes postos de combustível margeando a rodovia. Depois disso, uma paisagem ao estilo paulista – com estrada em linha reta a perder de vista, topografia plana e muita cana de açúcar – me trouxe aqui para Lagoa da Prata.

Lagoa da Prata tem uma enorme lagoa com peixes primos de piranhas e uma fábrica de ursinhos de pelúcia. Mas isso é outra história...

sexta-feira, 10 de julho de 2009

DIA 01

Eu imagino que quase toda viagem de verdade deve pressupor o distanciamento daquilo que é familiar e a busca por uma realidade nova e desconhecida, num movimento simultâneo de procura e fuga. Acho que esta minha viagem pelo São Francisco é mais ou menos isso.

E ela começou hoje ao meio-dia. Saí de Cássia, passei por Passos e segui rumo à Piumhi. Ao redor da estrada, cujo asfalto está em perfeitas condições, a topografia e a vegetação corriqueiras, com inúmero morros; pastos e matas se misturando num mosaico de verdes claros e escuros; e água, muita água. A beleza da represa de Furnas, com suas águas azuis que acompanham o traçado da estrada em vários momentos, dá à região uma aparência de abundância, frescor, bem-estar. Eu sempre tenho essa impressão. De longe, parece que não falta nada.

Eu não conhecia Piumhi. É uma espécie de Cássia maiorzinha. Cruzei a cidade, percorri outros 60 quilômetros de estrada, e cheguei a São Roque, primeira parada desta viagem.
Antes de propriamente conhecer a cidade, segui direto para a Serra da Canastra, onde está a nascente do Rio São Francisco. Subi quase 20 quilômetros numa estrada de terra que desafiava o carro a cada curva. Em alguns momentos, a vista compensava o sacrifício. Lá em cima, depois de caminhar por uma trilha curtinha de pedras, encontrei a tal nascente: uma pequena piscina natural, em meio a capim baixo, que desemboca numa corredeira minúscula. Dali em diante, o mundo. Pedi para uma turista simpática me fotografar naquela pose clichê, com um pé de cada lado do Rio São Francisco. Depois fiquei alguns minutos observando e pensando. A observação e o pensamento também eram clichês, porque o que me surpreendia ali era justamente a constatação óbvia do destino épico daquele riacho humilde. Pra quem gosta do passeio completo, logo ao lado da nascente há uma estátua de São Francisco de Assis. Eu fiquei satisfeito pela posição do sol naquele instante, quase poente, o que me possibilitou uma fotografia em contra-luz. Mais um clichê nesta tarde clichê.
Desci a serra engrenado e torcendo pra não cruzar com nenhum outro carro naquela estradinha estreita. Por fim, São Roque de Minas. Cidadezinha feia até falar chega. Eu sempre imaginei que fosse um pouco mais bonitinha, quase charmosa. Mas, não: é feia e aparenta uma pobreza digna. Não vi nenhuma construção mais sofisticada, as ruas de pedra fazem os paralelepípedos de Cássia parecerem o asfalto de Interlagos, o comércio é muito simples e as áreas não urbanizadas estão quase coladas ao centro. Mas a cidade é abraçada pela serra e por muito verde, o que compensa suas precariedades. E, nas cercanias, as cachoeiras são contadas às dezenas, o que justifica o turismo. Algumas pousadas são bem legais, mas o feriado de 9 de julho trouxe uma porção de paulistas pra cá, que lotaram os melhores lugares e me obrigaram a ficar no Hotel Chapadão da Canastra, que é honesto e bonitinho, mas não tem internet nem era minha primeira opção.

E, por falar em Hotel Chapadão da Canastra, vale dizer que quase todos os estabelecimentos daqui levam no nome as palavras Canastra, Nascente ou Casca d’Anta. “Auto-peças Canastra”, “Stillus Nascente”, “Panificadora Casca d’Anta”. Não tem muita coisa chamada “São Francisco”, mas tem um açougue que se chama “Açougue do Zé Padeiro”...

Antes de me instalar no hotel, dei uma volta sem pressa pela praça central, onde conheci a Helena, senhora de cinqüenta e poucos anos dona de um boteco de esquina. Entrei, pedi uma Coca Zero, me sentei e puxei papo. Descobri que o prefeito daqui é do PR, que o calçadão que ele construiu em frente à igreja não agradou ao comércio, que a cidade tem uns oito mil habitantes, e que a maior torcida local é do Cruzeiro, “bem à frente do Galo”. Simpática, a Helena. Quando saí, ela disse: “aparece aí mais tarde”.

Em frente ao boteco, outro boteco. Neste, uns dez aposentados, quase todos de chapéu, jogavam baralho e/ou comiam espetinhos assados numa churrasqueirazinha montada ali mesmo na calçada. Na outra esquina, a “Agência Tamanduá”, de turismo receptivo, onde conheci a Juciara, uma gordinha espertinha, com quem fiquei batendo papo enquanto ela me registrava no hotel indicado por ela mesma, o tal Chapadão da Canastra. Eu, tentando disfarçar a curiosidade chata, fiquei fazendo mil perguntas. Ela me disse que apenas três mil pessoas vivem na cidade e o restante da população está espalhado em fazendas e povoados, que compõem o quinto maior município mineiro em extensão. Ela falou também sobre a dependência que os moradores daqui têm em relação a cidades vizinhas maiores, como Passos, mas fez questão de frisar que há aqui um hospital simples sempre com médico de plantão, e que as escolas municipais contemplam até o ensino médio. “Quantas pousadas e hotéis?”, “17 na cidade e proximidades”; “Quantos turistas nos feriados mais movimentados?”, “Três mil no último carnaval”; “Você conhece Cássia?”, “Tenho um primo que mora lá, na rua do Ouro, e trabalha na cooperativa agropecuária. Estive lá há nove anos, logo depois da morte da minha mãe”. Obrigado, tchau.

Passei rapidinho pelo hotel, deixei as coisas, voltei pra praça, me sentei num banco de madeira e comecei a escrever este texto. Ao redor, uma pequena sorveteria, carros trafegando em segunda marcha, poucas pessoas passando aos pares, a igreja em frente, um inusitado Kiss tocando num boteco, e os dez velhinhos ainda no jogo de baralho. Escureceu. O Kiss virou Cássia Eller. E eu vim aqui para o Zagaia, o melhor restaurante de São Roque, indicação do Gustavo. Acho que todos os turistas fecham a noite aqui. Conto, no momento, 24 fregueses. Percebi um iPhone, uma bermuda cinza da Osklen e alguém perguntando se tem caipirinha de kiwi. Ao lado, um casal jovem, provavelmente de BH. A mulher sorri enquanto bisbilhota o cardápio. Em frente, cinco amigos: aposto um dedo que são paulistas, vieram de moto ou jipe e estão felizes. O que será que eles pensam deste sujeito sozinho, metido à besta, escrevendo em pleno restaurante? Turista é como aeroporto e shopping-center: são todos iguais. Às vezes dá preguiça encontrá-los, mas de vez em quando é preciso e faz bem. É mais ou menos a mesma coisa que ir a um McDonald’s depois de um mês viajando pelo interior da floresta amazônica.

Na música ambiente, surpreendentemente de bom gosto, uma versão de “Casa Pré-fabricada” em voz feminina. Acho que vou comer feijão tropeiro.