Antes disso, porém, o dia começou tranqüilo como um dia de férias. Acordei cedo, peguei uma cadeira emprestada no "Bar Casarão", desci até a praia e - com os pés fincados na areia e a barriga de fora - curti o sol e curti o Garcia Márquez e seu "O Amor nos Tempos do Cólera". Uma turminha adolescente jogava futebol logo atrás, uma família pequena tentava pescar bem a minha frente, um casal de namorados passou de mãos dadas.
Uma hora depois eu estava numa salinha apertada que parecia um corredor, diante do Geraldo Eustáquio e de seu amor comprometido por Ibiaí. O oficial administrativo da prefeitura é daquele tipo de homem que consegue ser magro e barrigudo ao mesmo tempo. Ele abotoa só os botões debaixo da camisa e, enquanto a gente faz perguntas, ele fica colocando a ponta da língua pra fora e dizendo "perfeito, perfeito...".
Como fonte de pesquisa, o bate papo foi excelente, mas não produziu assim nenhuma pérola. E, no final das contas, acho que o Geraldo Eustáquio só aparece nestes parágrafos por causa do José Vieira, que me foi apresentado por ele durante aquele conversa e de quem, logo depois, ouvi um punhado de boas histórias de pescador.
José Vieira, na verdade, era José Vieira só lá em Belo Horizonte, de onde veio há vinte e quatro anos. Em Ibiaí, ele só atende pelo pitoresco apelido "Zé de Nóis".
Com aquela pele curtidade quem vive sob o sol e duas ou três rugas tão bem marcadas que parecem esculpidas, o Zé de Nóis conta suas histórias com a voz de um locutor de rádio. E isso não é por acaso. Ele, que já foi pedreiro e depois mestre-de-obras na Globo de BH, queria ser repórter de campo. Chegou a passar num teste na rádio Globo, e só não foi contratado por causa de um boicote de seu chefe invejoso. Então, em vez de brigar e se estressar, preferiu seguir o que diz o ditado popular e foi pescar. É o que faz há duas décadas e meia.
Nesse tempo todo, acumulou histórias e experiência. Ele é capaz de explicar com precisão, por exemplo, como se faz para pescar um surubim no fundo do rio usando uma pedra, uma bóia, duas cordas resistentes, um anzol e uma traíra. E fala também do projeto "Peixe, Pessoa e Água" e de suas ambições políticas - ele é fundador do PT em Ibiaí.
Mas, como todo pescador, ele é bom mesmo é pra contar histórias. Entre as muitas que contou, está a noite em que pescou tanto surubim que teve que devolver alguns pro rio, e a tarde em que foi surpreendido por uma onça enquanto pegava minhocas e só se salvou por causa de um mosquito.
Depois de quase uma hora de prosa, eu me despedi dele, organizei minhas malas, paguei a conta do hotel e tomei a decisão que poderia ter levado a vaca pro brejo. Foi assim...
Eu comentei com o dono do hotel, o seu Manoel, que eu estava saindo para a cidade de São Francisco e que, por segurança, iria pelo caminho mais longo, que é o único asfaltado. Isso significava retornar para a BR-365 e acrescentar cento e vinte quilômetros a uma viagem que poderia ser vencida em apenas cento e cinqüenta, caso a estrada escolhida fosse a de terra. O seu Manoel - que tem um nariz enorme e não tem os dentes debaixo - disse que seria uma besteira dar essa volta.
"Tem certeza, seu Manoel?". "Tenho". "Mas a estrada está boa?". "Às vezes, sim, às vezes, mais ou menos". "E tem sinalização?". "Tem". "E eu consigo com um Gol?". "Claro, uai". Então, tá.
Para não prejudicar o carro, eu pretendia andar a uns trinta quilômetros por hora, o que me obrigaria a ficar quase cinco horas na estrada de terra. Como eu não estava com pressa, e como eu sou um besta curioso, lá fui eu...
Antes de sair, passei no "Bar Casarão" para tirar uma fotografia da Fabiana, como eu havia prometido a ela ontem. Mas ela não estava lá, e eu tinha muito chão pela frente. Não esperei. Coitada da Fabiana: por causa da foto, ela tinha me dito na véspera que viria trabalhar de maquiagem.
Os primeiros trinta quilômetros foram relativamente tranqüilos, já que a estrada que liga Ibiaí a Ponto Chique está em obras para ser asfaltada em breve. Grande parte do trecho pode ser considerada quase um tapete de terra, e há muita gente trabalhando ao longo da estrada. Se eu buzinasse, com certeza alguém ouviria. A partir daí, porém, foi mais difícil.
Ao contrário do que o seu Manoel me disse, há apenas uma placa em toda a estrada. Além disso, durante muitos e muitos quilômetros, não se via uma alma viva ou morta (sem contar a minha). Pra piorar, duas encruzilhadas mudas e ingratas. Na primeira, tomei o caminho da esquerda, na segunda, o da direita, seguindo um bom senso meio duvidoso. E toquei em frente.Por duas horas e meia, rodei por estradas de terra largas e arejadas, por estradas de terra estreitas e cobertas por árvores, por estradas de terra que poderiam ser chamadas de estradas de areia, por estradas de terra vermelha e terra amarela. Cruzei algumas vacas, um cachorro e nenhuma pessoa. Passei por currais vazios, por uma vendinha fechada e por uma casa onde se lia na parede "Guilhermão 45.444".
O sol começou a alaranjar o céu e eu já não tinha certeza do caminho há pelo menos uma hora, quando uma estrada de asfalto caiu no meu colo. Uma placa dizia que a cidade de São Romão estava a oito quilômetros. Uma segunda placa acrescentava que, para São Francisco, era preciso pegar outra estrada de terra por mais cinqüenta e três quilômetros.
Decidi mudar os planos e antecipar o pouso. Cheguei a São Romão depois de um trecho de quinze minutos de balsa. Minha primeira impressão?
Se você pegar uma cidadezinha de beira de rio e misturá-la com uma cidadezinha histórica que não deu certo, e se você colocar aí umas pitadinhas de vila de faroeste, a chance do resultado disso tudo ser São Romão é bem grande.
Bem feito, quem mandou vc não tirar a foto da Fabiana.
ResponderExcluirDescreva a Fabiana. Faça, ao menos, um retrato falado. Esse tipo de praga - a de mulher maquiada e ferida - é das mais perigosas. Não se furte à tarefa, nem a menospreze. Estamos curiosos, e ela, danada da vida.
ResponderExcluirAbraço
Thiago Majolo
Este comentário foi removido pelo autor.
ResponderExcluirCom certeza, atrasou sua viagem. Mas também valerá à pena.Estamos ansiosos de suas impressões pela cidade de São Franciso, pois a partir daí já conhecemos. Estamos viajando na sua viagem.
ResponderExcluirGostaria de fazer um apelo: conte com detalhes a história da onça e do mosquito. Deve ser boa demais!
ResponderExcluirSe te interessar, tem uma amiga minha que é de São Francisco. Ela não mora lá, mas tem familia que vive na cidade. Se precisar dos contatos, me ligue.
Boa viagem!
Boa atarde Eduardo
ResponderExcluirConsegui passar para meus arquvos até o dia 06 porque quero ler na ordem.Só li o dia 01 por enquanto e estou encantada.
Continuo mais tarde;