quinta-feira, 16 de julho de 2009

DIA 07

Acho que hoje eu me arrisquei na maior aventura desta viagem até o momento. Olhando agora, pelo retrovisor, até parece moleza, mas as coisas não foram tão fáceis assim enquanto eu estava lá embaixo do sol, perdido num ponto fora do mapa, sozinho com um carro mil, duas garrafinhas d'água e uma caixa de chocolates Garoto.

Antes disso, porém, o dia começou tranqüilo como um dia de férias. Acordei cedo, peguei uma cadeira emprestada no "Bar Casarão", desci até a praia e - com os pés fincados na areia e a barriga de fora - curti o sol e curti o Garcia Márquez e seu "O Amor nos Tempos do Cólera". Uma turminha adolescente jogava futebol logo atrás, uma família pequena tentava pescar bem a minha frente, um casal de namorados passou de mãos dadas.

Uma hora depois eu estava numa salinha apertada que parecia um corredor, diante do Geraldo Eustáquio e de seu amor comprometido por Ibiaí. O oficial administrativo da prefeitura é daquele tipo de homem que consegue ser magro e barrigudo ao mesmo tempo. Ele abotoa só os botões debaixo da camisa e, enquanto a gente faz perguntas, ele fica colocando a ponta da língua pra fora e dizendo "perfeito, perfeito...".

Como fonte de pesquisa, o bate papo foi excelente, mas não produziu assim nenhuma pérola. E, no final das contas, acho que o Geraldo Eustáquio só aparece nestes parágrafos por causa do José Vieira, que me foi apresentado por ele durante aquele conversa e de quem, logo depois, ouvi um punhado de boas histórias de pescador.

José Vieira, na verdade, era José Vieira só lá em Belo Horizonte, de onde veio há vinte e quatro anos. Em Ibiaí, ele só atende pelo pitoresco apelido "Zé de Nóis".

Com aquela pele curtidade quem vive sob o sol e duas ou três rugas tão bem marcadas que parecem esculpidas, o Zé de Nóis conta suas histórias com a voz de um locutor de rádio. E isso não é por acaso. Ele, que já foi pedreiro e depois mestre-de-obras na Globo de BH, queria ser repórter de campo. Chegou a passar num teste na rádio Globo, e só não foi contratado por causa de um boicote de seu chefe invejoso. Então, em vez de brigar e se estressar, preferiu seguir o que diz o ditado popular e foi pescar. É o que faz há duas décadas e meia.

Nesse tempo todo, acumulou histórias e experiência. Ele é capaz de explicar com precisão, por exemplo, como se faz para pescar um surubim no fundo do rio usando uma pedra, uma bóia, duas cordas resistentes, um anzol e uma traíra. E fala também do projeto "Peixe, Pessoa e Água" e de suas ambições políticas - ele é fundador do PT em Ibiaí.

Mas, como todo pescador, ele é bom mesmo é pra contar histórias. Entre as muitas que contou, está a noite em que pescou tanto surubim que teve que devolver alguns pro rio, e a tarde em que foi surpreendido por uma onça enquanto pegava minhocas e só se salvou por causa de um mosquito.

Depois de quase uma hora de prosa, eu me despedi dele, organizei minhas malas, paguei a conta do hotel e tomei a decisão que poderia ter levado a vaca pro brejo. Foi assim...

Eu comentei com o dono do hotel, o seu Manoel, que eu estava saindo para a cidade de São Francisco e que, por segurança, iria pelo caminho mais longo, que é o único asfaltado. Isso significava retornar para a BR-365 e acrescentar cento e vinte quilômetros a uma viagem que poderia ser vencida em apenas cento e cinqüenta, caso a estrada escolhida fosse a de terra. O seu Manoel - que tem um nariz enorme e não tem os dentes debaixo - disse que seria uma besteira dar essa volta.

"Tem certeza, seu Manoel?". "Tenho". "Mas a estrada está boa?". "Às vezes, sim, às vezes, mais ou menos". "E tem sinalização?". "Tem". "E eu consigo com um Gol?". "Claro, uai". Então, tá.

Para não prejudicar o carro, eu pretendia andar a uns trinta quilômetros por hora, o que me obrigaria a ficar quase cinco horas na estrada de terra. Como eu não estava com pressa, e como eu sou um besta curioso, lá fui eu...

Antes de sair, passei no "Bar Casarão" para tirar uma fotografia da Fabiana, como eu havia prometido a ela ontem. Mas ela não estava lá, e eu tinha muito chão pela frente. Não esperei. Coitada da Fabiana: por causa da foto, ela tinha me dito na véspera que viria trabalhar de maquiagem.

Os primeiros trinta quilômetros foram relativamente tranqüilos, já que a estrada que liga Ibiaí a Ponto Chique está em obras para ser asfaltada em breve. Grande parte do trecho pode ser considerada quase um tapete de terra, e há muita gente trabalhando ao longo da estrada. Se eu buzinasse, com certeza alguém ouviria. A partir daí, porém, foi mais difícil.

Ao contrário do que o seu Manoel me disse, há apenas uma placa em toda a estrada. Além disso, durante muitos e muitos quilômetros, não se via uma alma viva ou morta (sem contar a minha). Pra piorar, duas encruzilhadas mudas e ingratas. Na primeira, tomei o caminho da esquerda, na segunda, o da direita, seguindo um bom senso meio duvidoso. E toquei em frente.

Por duas horas e meia, rodei por estradas de terra largas e arejadas, por estradas de terra estreitas e cobertas por árvores, por estradas de terra que poderiam ser chamadas de estradas de areia, por estradas de terra vermelha e terra amarela. Cruzei algumas vacas, um cachorro e nenhuma pessoa. Passei por currais vazios, por uma vendinha fechada e por uma casa onde se lia na parede "Guilhermão 45.444".

O sol começou a alaranjar o céu e eu já não tinha certeza do caminho há pelo menos uma hora, quando uma estrada de asfalto caiu no meu colo. Uma placa dizia que a cidade de São Romão estava a oito quilômetros. Uma segunda placa acrescentava que, para São Francisco, era preciso pegar outra estrada de terra por mais cinqüenta e três quilômetros.

Decidi mudar os planos e antecipar o pouso. Cheguei a São Romão depois de um trecho de quinze minutos de balsa. Minha primeira impressão?

Se você pegar uma cidadezinha de beira de rio e misturá-la com uma cidadezinha histórica que não deu certo, e se você colocar aí umas pitadinhas de vila de faroeste, a chance do resultado disso tudo ser São Romão é bem grande.

6 comentários:

  1. Bem feito, quem mandou vc não tirar a foto da Fabiana.

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  2. Descreva a Fabiana. Faça, ao menos, um retrato falado. Esse tipo de praga - a de mulher maquiada e ferida - é das mais perigosas. Não se furte à tarefa, nem a menospreze. Estamos curiosos, e ela, danada da vida.
    Abraço
    Thiago Majolo

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  3. Este comentário foi removido pelo autor.

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  4. Com certeza, atrasou sua viagem. Mas também valerá à pena.Estamos ansiosos de suas impressões pela cidade de São Franciso, pois a partir daí já conhecemos. Estamos viajando na sua viagem.

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  5. Gostaria de fazer um apelo: conte com detalhes a história da onça e do mosquito. Deve ser boa demais!
    Se te interessar, tem uma amiga minha que é de São Francisco. Ela não mora lá, mas tem familia que vive na cidade. Se precisar dos contatos, me ligue.
    Boa viagem!

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  6. Boa atarde Eduardo
    Consegui passar para meus arquvos até o dia 06 porque quero ler na ordem.Só li o dia 01 por enquanto e estou encantada.
    Continuo mais tarde;

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