Por incrível que pareça, isso não foi o suficiente pra fazer com que eu acordasse de mau humor. A charmosa Pousada da Tia Dora e a simpatia da dona e de seu marido, o seu Lúcio, compensaram o coral de patos.
Eu cheguei lá ontem, já de noitinha, depois de atravessar de balsa a Represa de Três Marias. Na travessia, tinha conhecido dois camaradas bons de papo com quem fiquei jogando conversa fora durante os trinta minutos de navegação. O primeiro deles, o Renato, é técnico da Oi Celular e tem aquela voz de quem fuma muito. Do que ele falou – e ele falou bastante – ficou o seguinte: Diamantina é a melhor cidade do mundo e Cordisburgo não tem nada que presta.
O segundo companheiro de balsa, o Denis, um moreninho bem-humorado de uma cidade chamada Pintópolis, me disse que Pirapora era mais perigosa do que a Faixa de Gaza.
Mas isso tudo não vem ao caso. O fato é que cheguei de noitinha na cidade de Três Marias e não vi muita graça naquilo ali. Achei melhor andar mais meia dúzia de quilômetros pela BR-040 e me arriscar na pousada que se anunciava numa placa vistosa bem no trevo da cidade. Valeu a pena.
Apesar de simples, a Pousada da Tia Dora coleciona qualidades. Pra encurtar a descrição, vale dizer que tem quase tudo o que um turista paulista imagina quando pensa em “pousada de Minas”. Pão de queijo e quitutes no café da manhã? Tem. Trilhazinha de pedras entre riachos e árvores? Tem. Rede na varanda? Tem. Pato? Tem também. Dezesseis.
Hoje cedo, me sentei diante do seu Lúcio e bati um longo papo. Nessa prosa, ele me contou como ele e a esposa criaram em 1969 uma agência de turismo em Belo Horizonte pra levar adolescentes à Disneylândia. E como a agência cresceu e possibilitou que ele conhecesse o mundo. E como pescar surubim no São Francisco é mais divertido do que acompanhar vinte e uma jovenzinhas mimadas pelas ruas de Londres.
Por isso, diz Lúcio, a partir da década de 70, começou a freqüentar cada vez mais a cidade de Três Marias para pescar ao lado dos filhos. Com o tempo, comprou um terreno às margens da rodovia, bem pertinho do rio. Mais um tanto de anos, construiu uma casa ali. Depois, outra. E, em 1989, a pousada estava criada, assim de um jeito quase sem querer. Hoje, ele mora lá com a esposa que empresta o nome ao empreendimento.
Lúcio fala pausado, num português exemplar, e tem aquele timbre de voz que acalma o interlocutor. Parece feliz e quer continuar melhorando a pousada. Antes d’eu ir embora, ele me pediu para acompanhá-lo até a piscina. Lá, ele ligou uma espécie de cachoeirazinha artificial que cai sobre a água, e ficou observando aquilo todo orgulhoso.
Boa gente, o seu Lúcio.
Mais 170 quilômetros e cheguei a Pirapora, cidade importante da região do São Francisco, que tem 50 mil habitantes, uma orla extensa, ao estilo de cidade praiana, muitos turistas pescadores e não é mais violenta que a Faixa de Gaza. E tem também orelhões em formato de surubim e cruzeirenses e atleticanos fanáticos. Aqui, até as menininhas bonitas vestem camisetas dos times.
No estacionamento em frente à varanda do “Egnaldo”, enfileiravam-se caminhonetes grandes com placas de Belo Horizonte. Aliás, metade dos fregueses parecia ser de lá. A outra metade, uma óbvia e simpática elite provinciana. Ali, se ouvia frases do tipo: “ele passou no concurso pra promotor ante de mim”, ou “a turma da academia vai participar da maratona semana que vem”, ou “você acredita que depois daquilo eu ainda a vi no Diamond?”.
Comi. Paguei. Perguntei: “onde é bom para se assistir ao jogo aqui em Pirapora?”. “No Kaka’s Bar e Churrascaria”. Fui pra lá.
Como o restaurante, este bar também fica na orla e também é enorme. Às quatro em ponto, provavelmente 300 ou mais pessoas torciam ali dentro, vidradas no telão. Repetindo o almoço, fiquei bebendo uma Brahma e observando. Aqueles jovens “classe média” – alegres, falando alto, de copo na mão – me pareceram ao mesmo tempo tão peculiares e tão idênticos a todos os outros...
Hoje à noite, há duas atrações na cidade: uma micareta e um arraial cristão. Como se vê, estou bem servido. Se eu demorar mais de três dias pra atualizar o blog, por favor, alguém chame a polícia...
Adorei essas histórias, e acho que o papo com o seu Lucio vale um milhão de quac quac. Como são 16 patos, deve ter chegado bem perto disso!
ResponderExcluirEm meio de tantas "Coca Zero", enfim uma Brahma. Já estávamos preocupados..
ResponderExcluirhehehe
Quanto foi o jogo mesmo? Só pra saber...
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