sexta-feira, 10 de julho de 2009

DIA 01

Eu imagino que quase toda viagem de verdade deve pressupor o distanciamento daquilo que é familiar e a busca por uma realidade nova e desconhecida, num movimento simultâneo de procura e fuga. Acho que esta minha viagem pelo São Francisco é mais ou menos isso.

E ela começou hoje ao meio-dia. Saí de Cássia, passei por Passos e segui rumo à Piumhi. Ao redor da estrada, cujo asfalto está em perfeitas condições, a topografia e a vegetação corriqueiras, com inúmero morros; pastos e matas se misturando num mosaico de verdes claros e escuros; e água, muita água. A beleza da represa de Furnas, com suas águas azuis que acompanham o traçado da estrada em vários momentos, dá à região uma aparência de abundância, frescor, bem-estar. Eu sempre tenho essa impressão. De longe, parece que não falta nada.

Eu não conhecia Piumhi. É uma espécie de Cássia maiorzinha. Cruzei a cidade, percorri outros 60 quilômetros de estrada, e cheguei a São Roque, primeira parada desta viagem.
Antes de propriamente conhecer a cidade, segui direto para a Serra da Canastra, onde está a nascente do Rio São Francisco. Subi quase 20 quilômetros numa estrada de terra que desafiava o carro a cada curva. Em alguns momentos, a vista compensava o sacrifício. Lá em cima, depois de caminhar por uma trilha curtinha de pedras, encontrei a tal nascente: uma pequena piscina natural, em meio a capim baixo, que desemboca numa corredeira minúscula. Dali em diante, o mundo. Pedi para uma turista simpática me fotografar naquela pose clichê, com um pé de cada lado do Rio São Francisco. Depois fiquei alguns minutos observando e pensando. A observação e o pensamento também eram clichês, porque o que me surpreendia ali era justamente a constatação óbvia do destino épico daquele riacho humilde. Pra quem gosta do passeio completo, logo ao lado da nascente há uma estátua de São Francisco de Assis. Eu fiquei satisfeito pela posição do sol naquele instante, quase poente, o que me possibilitou uma fotografia em contra-luz. Mais um clichê nesta tarde clichê.
Desci a serra engrenado e torcendo pra não cruzar com nenhum outro carro naquela estradinha estreita. Por fim, São Roque de Minas. Cidadezinha feia até falar chega. Eu sempre imaginei que fosse um pouco mais bonitinha, quase charmosa. Mas, não: é feia e aparenta uma pobreza digna. Não vi nenhuma construção mais sofisticada, as ruas de pedra fazem os paralelepípedos de Cássia parecerem o asfalto de Interlagos, o comércio é muito simples e as áreas não urbanizadas estão quase coladas ao centro. Mas a cidade é abraçada pela serra e por muito verde, o que compensa suas precariedades. E, nas cercanias, as cachoeiras são contadas às dezenas, o que justifica o turismo. Algumas pousadas são bem legais, mas o feriado de 9 de julho trouxe uma porção de paulistas pra cá, que lotaram os melhores lugares e me obrigaram a ficar no Hotel Chapadão da Canastra, que é honesto e bonitinho, mas não tem internet nem era minha primeira opção.

E, por falar em Hotel Chapadão da Canastra, vale dizer que quase todos os estabelecimentos daqui levam no nome as palavras Canastra, Nascente ou Casca d’Anta. “Auto-peças Canastra”, “Stillus Nascente”, “Panificadora Casca d’Anta”. Não tem muita coisa chamada “São Francisco”, mas tem um açougue que se chama “Açougue do Zé Padeiro”...

Antes de me instalar no hotel, dei uma volta sem pressa pela praça central, onde conheci a Helena, senhora de cinqüenta e poucos anos dona de um boteco de esquina. Entrei, pedi uma Coca Zero, me sentei e puxei papo. Descobri que o prefeito daqui é do PR, que o calçadão que ele construiu em frente à igreja não agradou ao comércio, que a cidade tem uns oito mil habitantes, e que a maior torcida local é do Cruzeiro, “bem à frente do Galo”. Simpática, a Helena. Quando saí, ela disse: “aparece aí mais tarde”.

Em frente ao boteco, outro boteco. Neste, uns dez aposentados, quase todos de chapéu, jogavam baralho e/ou comiam espetinhos assados numa churrasqueirazinha montada ali mesmo na calçada. Na outra esquina, a “Agência Tamanduá”, de turismo receptivo, onde conheci a Juciara, uma gordinha espertinha, com quem fiquei batendo papo enquanto ela me registrava no hotel indicado por ela mesma, o tal Chapadão da Canastra. Eu, tentando disfarçar a curiosidade chata, fiquei fazendo mil perguntas. Ela me disse que apenas três mil pessoas vivem na cidade e o restante da população está espalhado em fazendas e povoados, que compõem o quinto maior município mineiro em extensão. Ela falou também sobre a dependência que os moradores daqui têm em relação a cidades vizinhas maiores, como Passos, mas fez questão de frisar que há aqui um hospital simples sempre com médico de plantão, e que as escolas municipais contemplam até o ensino médio. “Quantas pousadas e hotéis?”, “17 na cidade e proximidades”; “Quantos turistas nos feriados mais movimentados?”, “Três mil no último carnaval”; “Você conhece Cássia?”, “Tenho um primo que mora lá, na rua do Ouro, e trabalha na cooperativa agropecuária. Estive lá há nove anos, logo depois da morte da minha mãe”. Obrigado, tchau.

Passei rapidinho pelo hotel, deixei as coisas, voltei pra praça, me sentei num banco de madeira e comecei a escrever este texto. Ao redor, uma pequena sorveteria, carros trafegando em segunda marcha, poucas pessoas passando aos pares, a igreja em frente, um inusitado Kiss tocando num boteco, e os dez velhinhos ainda no jogo de baralho. Escureceu. O Kiss virou Cássia Eller. E eu vim aqui para o Zagaia, o melhor restaurante de São Roque, indicação do Gustavo. Acho que todos os turistas fecham a noite aqui. Conto, no momento, 24 fregueses. Percebi um iPhone, uma bermuda cinza da Osklen e alguém perguntando se tem caipirinha de kiwi. Ao lado, um casal jovem, provavelmente de BH. A mulher sorri enquanto bisbilhota o cardápio. Em frente, cinco amigos: aposto um dedo que são paulistas, vieram de moto ou jipe e estão felizes. O que será que eles pensam deste sujeito sozinho, metido à besta, escrevendo em pleno restaurante? Turista é como aeroporto e shopping-center: são todos iguais. Às vezes dá preguiça encontrá-los, mas de vez em quando é preciso e faz bem. É mais ou menos a mesma coisa que ir a um McDonald’s depois de um mês viajando pelo interior da floresta amazônica.

Na música ambiente, surpreendentemente de bom gosto, uma versão de “Casa Pré-fabricada” em voz feminina. Acho que vou comer feijão tropeiro.

10 comentários:

  1. Edu que delícia!!!

    Espero que tudo ocorra para contribuir com seus objetivos.

    Numa próxima quero ir junto.

    Abs e boa sorte !!!!

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  2. Depois de tomar uma fria chuva, ao sair de um trabalho, cheio de toques de telefones, ar-condiconado e muitos, muitos números. Estou cá, assistindo ao Jornal Nacional e fazendo uma lista de compras para o sábado. Mas alguma coisa me surpreende no MSN, "msg de Eduardo Barros", fico curiosa para saber como está a aventura esquisita desse meu amigo querido. E confesso que senti um pouquito de inveja, e muito orgulho. Clichê ou não, confesso que sua tarde foi um milhão de vezes mais interessante que a minha.
    O Mário Neto está agora disputando uma partida de futebol com os caras do banco. E logo que ele chegar mostrarei seu blog a ele.
    Aproveite tudo e aguardo novidades.
    beijinho

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  3. Cara, será muito legal acompanhar essa viagem sua por aqui.

    Valeu!!! Vai que vai...com Deus!

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  4. Eduardo,
    muito legal acompanhar sua viagem, principalmente pela riqueza de detalhes que só mesmo você para descrever.
    Só não mexe na minhas gavetas em, todas estas cidades eu conheço muito bem...se é que você me entende, rsrsrsrsrs
    Abraço e vai com Deus!

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  5. Ahhh!!! Vai escrever bem pra lá. Tenho orgulho de ser seu amigo.

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  6. Este comentário foi removido pelo autor.

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  7. Doarrrdo!!!
    Ótima idéia esse blog.
    Vou acompanhar direto.
    Boa viagem!!!

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  8. Rapaz,
    tava querendo ser algum desses personagens:
    São Francisco de Assis, ou um dos aposentados jogando ou até mesmo o Zé padeiro, dono do açougue, só pra participar dessa aventura com você!
    Criei imagens quase perfeitas desses primeiros momentos, graças à riqueza de detalhes que só você consegue fazer.
    Beijo procê.

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  9. Cara, num tô conseguindo postar comentários, não sei se esse vai. De qq forma, muito legal o blog! Vou ler tudo!

    Será que tem uma padaria do Zé Carniça?

    Onde ce vai comemorar o título amanhã? Acho que o Paulistelrooy vai ser o nome do jogo.

    Aproveita!

    Abz!

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  10. Duarrrrrdo, Filhote, rsss... só agora consigo chegar no seu dia 07. É que na correria dessa cidade doida, que também é sua, só agora consigo a proeza me emparelhar no seu tempo. Ler o que você escreve, faz a gente ver. Obrigada por ter escrito. Isso só me faz pensar que quando seu livro estiver pronto, vai ser demais de bão! Siga fazendo isso nessa vida.
    Beijos,
    Camila

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