sábado, 11 de julho de 2009

DIA 02

Imagine um arranha-céu com dimensões nova-iorquinas. Imaginou? Coloque-se, então, bem debaixo do edifício e depois olhe pra cima. Sinta a vertigem provocada pela altura do prédio. Agora, num exercício de liberdade criativa, imagine todas as toneladas de concreto desta construção se transformando em milhões de litros de água. Conseguiu enxergar a cena? Pois bem, exceto a parte da transformação mágica, o restante ilustra direitinho a impressão e o impacto que a Casca d’Anta provoca em quem se posta diante dela, num rincão do Chapadão da Zagaia, na Serra da Canastra mineira.

Com 186 metros de queda d’água, esta cachoeira é a primeira e a maior do Rio São Francisco. Para chegar até ela, você precisa ir até a cidadezinha de Vargem Bonita, muito próxima de São Roque, de lá pegar uma estrada de terra de mais ou menos 25 quilômetros e, finalmente, caminhar por uma trilha de quase dois quilômetros. Foi o que fiz hoje, logo cedinho.

Durante a trilha, já é possível ouvir a cachoeira se espatifando barulhenta num pequeno poço de água azul. Aos poucos, entre as árvores, ela começa a ser avistada. E quando chegamos ao primeiro mirante, a Casca d’Anta se mostra majestosa, exagerada e inquestionável. Seguindo em frente mais alguns metros, dá pra ficar quase embaixo dela, de onde se elimina qualquer dúvida de que estamos diante de um troço que não vai mais sair da lembrança. É preciso erguer bastante a vista pra enxergar de onde cai todo aquele aguaceiro. Ao lado da queda, um paredão enorme e vertical, que nos apequena a proporções de playmobil.


Eu não sou desses que se deslumbram facilmente com a natureza, mas devo reconhecer que a Casca d’Anta passou uma rasteira na minha porção blasé. Fiquei ali parado, sozinho, por quase meia hora. Pensei, fotografei, e tive vontade de compartilhar aquilo com outras pessoas. Eu me lembrei do escritor Bartolomeu Campos de Queiroz, que nos disse numa entrevista que a beleza pode ser traduzida como aquilo que não suportamos ver sozinho. É isso mesmo.

E, depois de um tempo, chegaram alguns turistas de Bauru. Oi, tchau.
Na volta, venci os 25 quilômetros de terra a 20 km/h. À esquerda da estrada, o paredão cinematográfico da serra me acompanhava em silêncio. Algumas pousadinhas simples distribuídas ao longo da margem. Lá pra frente, uma vendinha daquelas bem fuleiras. Parei pra tomar uma Coca Zero e lá encontrei o Xisto. Vocês tinham que conhecer o Xisto.

Eu estava lá sentado com meu mapa e minha Coca Zero. De repente, dois bêbados vão se aproximando, puxando papo e, num piscar de olhos, já estavam sentados na minha mesa. Ok. Vamos tirar algo de proveitoso disso. Saquei a câmera fotográfica e comecei a conversar. Um deles, o Xisto, era todo prosa. O outro, o Elias, estava receoso: fez mil perguntas, fez cara feia e fez questão de dizer que não era bandido. Não dei muita bola e engrenei um papo com o Xisto.

Sessenta anos, aparência detonada, roupas puídas, chapéu na cabeça, fala enrolada e um par de olhos verdes desperdiçados. Xisto tem uma rocinha ali perto, onde planta e colhe para a própria sobrevivência. Planta feijão, milho, um pouco de café. Não tem nenhuma vaca. Vive assim. Nunca se casou e nunca teve filhos. Pouco a pouco, a prosa flui. Ele encara a câmera com fascínio. Pergunto como é seu dia, e ele responde quase em tópicos: “acordo cedo, faço café, capino, planto, de vez em quando, colho...”. E o que ele vai fazer hoje mais tarde? “Lavar minha roupa”. E o que ele faz quando não está trabalhando? “Se estiver chovendo, eu durmo...”. Ele não tem TV em casa. Ele não tem nada.

Durante 15 minutos, eu estive com ele, e o que dele ficou em mim foi a certeza de que Xisto vive um eterno presente, em que é capaz de enxergar e tocar apenas o pedaço de mundo que alcança com os braços. Um esqueleto de gente, aquilo que sobra depois que a vida e o mundo nos roubam os detalhes e acessórios que nos fazem humanos.

Enquanto isso, o Elias ia e vinha, sempre praguejando e comendo uma maçã que vez ou outra cuspia em cima da mesa. Fiquei com ojeriza dele. E, depois, me vinguei...

Fui até o balcão, paguei a Coca Zero e comprei duas doses de pinga. Levei a primeira pro Xisto e a entreguei em mãos. Disse pra ele: “tem mais uma dose paga pra você. Se quiser dar pro seu amigo, pode dar. Mas é você que decide”.

Antes de sair, e antes que ele esboçasse qualquer reação, perguntei qual era seu maior sonho. Com o copo de pinga na mão, ele me respondeu: “Viver”. Simples assim.

Segui viagem.

Muitos quilômetros depois, troquei de estrada no trevo de Pimenta e, mais adiante, cruzei Pains, cidadezinha que se intitula a “Capital Mundial do Calcário”. Na seqüência, passei por Arcos, que é maior e onde se nota intensa circulação de caminhões e inúmeros e enormes postos de combustível margeando a rodovia. Depois disso, uma paisagem ao estilo paulista – com estrada em linha reta a perder de vista, topografia plana e muita cana de açúcar – me trouxe aqui para Lagoa da Prata.

Lagoa da Prata tem uma enorme lagoa com peixes primos de piranhas e uma fábrica de ursinhos de pelúcia. Mas isso é outra história...

8 comentários:

  1. põe fotos no blog tb

    e não esqueça que uma cervejinha faz um bem danado!
    abs

    ResponderExcluir
  2. Muito bom! To me divertindo cara!

    Abraço

    ResponderExcluir
  3. Sinto que esse mês não precisarei ler nenhum outro livro.
    Bravo!!

    ResponderExcluir
  4. Fala Edu!

    Vou acompanhar a jornada!!

    Abraço

    ResponderExcluir
  5. Cada um, cada um!
    Se eu tivesse no seu lugar, teria ficado ali mesmo. Mergulhado na casca d'anta, tomado pinga com o xisto, dado uma rasteira no Elias, mas uma rasteira de verdade, que o rapaz ia ficar com dor na coluna até semana que vem!...hehe, a viagem é sua e a inveja é minha(saudável como o sempre!)
    Amando literalmente ler os seus posts.
    Mais um beijo do amigo aqui.

    ResponderExcluir
  6. Cade as fotos do Xisto???
    Abraços!!!

    ResponderExcluir
  7. Assim como Belo Horizonte é a Capital Mundial do Galo!

    Ótimos textos!

    abz!

    ResponderExcluir
  8. Pois então, faltou vc conhecer as grutas de Arcos e Pains, tambem tem cachoeiras, Nossa terra é linda, Arcos se junta com Pains onde ambas são Capitais mundial de pedras calcarias, As pedreiras de ARCOS são exposta para fora da terra e de PAINS são interna, debaixo da terra. Meu nome é Rogério, sou da cidade de ARCOS-MG.... Vcs me acham no orkut com o perfil Rogerio Alves Teixeira

    ResponderExcluir