sábado, 11 de julho de 2009

DIA 03

Você pode descrever Lagoa da Prata de diversas maneiras. Por exemplo: cidade de 40 mil habitantes localizada no centro-oeste mineiro, a oito quilômetros do Rio São Francisco. Ou então: cidade turística com uma enorme lagoa urbanizada que se espalha pelo centro do município. Ou ainda: a sede da indústria de laticínios Embaré, empresa relativamente pujante e orgulho dos moradores locais.

Eu prefiro descrever Lagoa da Prata como a “Capital Nacional dos Rifeiros”. Isso mesmo: “Rifeiros”. E não fui eu que inventei isso.

O esquema, que já foi uma das principais fontes de renda da cidade, funciona assim: o sujeito vai até o Paraguai, compra mil relógios, ou coisa parecida, pega um ônibus, vai pingando em diversas cidades do Brasil e distribuindo as cartelinhas de rifa para contatos pré-estabelecidos. Um mês depois, o sujeito retorna à cidade, recolhe a cartelinha vendida e a grana arrecadada, realiza o sorteio, entrega o prêmio ao sorteado – neste caso, o relógio do Paraguai – e paga o vendedor local com outro relógio. E vai fazendo isso por tudo quanto é canto.

Esta prática pode ser verificada por aqui até hoje, embora em menor escala. Quem conta isso é Jordan (pronuncia-se Jordán), recepcionista do hotel onde me hospedei. Ele afirma que a fama de “Capital Nacional dos Rifeiros” vem de longa data e já rendeu até reportagens na TV. E diz tudo isso com conhecimento de causa: seu primo foi preso onze anos atrás em Curvelo, ao tentar vender uma rifa para a esposa de um sargento. Como se sabe, o mercado de rifas está às margens da legalidade...

Mas Lagoa da Prata não se resume a isso. Tem também, por exemplo, uma inusitada fábrica de ursinhos de pelúcia e a tal lagoa que empresta o nome à cidade. A lagoa é enorme e parcialmente circundada por uma praia de areia. Há coqueiros, muitos banquinhos, uma quadra de peteca e um barzinho. Quem me deu mais informações sobre o lugar foi o salva-vidas Lúcio. Ele disse que, apesar de não parecer, a lagoa é natural e tem mais de dez metros de profundidade; comentou, orgulhoso, que no verão ela fica cheia de turistas da região, que pagam dez reais pra entrar e usufruir do espaço. Confessou também que ultimamente um ou outro banhista tem sido atacado por peixes “cavaquinhos”. Apesar do apelido inofensivo, eles são primos das piranhas. Ninguém se machucou com gravidade até agora.

O salva-vidas Lúcio tem quase cinqüenta anos e se parece com um dono de mercearia, ou um vendedor de redes, ou um amolador de facas. Menos salva-vidas.

Saí da lagoa e fui para a praça central da cidade. Uma pracinha movimentada, rodeada de muitas e diversificadas lojas, e da qual brota a Avenida Brasil, a principal de Lagoa da Prata, onde há muitos postos de gasolina, muitas vitrines, muitos semáforos e muito barulho. Quase uma cidade grande. Não tinha mais porque ficar ali.

Antes de ir embora, porém, venci oito quilômetros de estrada de terra, sempre cercado de cana-de-açúcar, e me encontrei com o São Francisco, que corre por baixo de uma ponte de ferro tão velha que chega a dar medo. Não há exuberância alguma, o que justifica o papel coadjuvante que o rio desempenha na vida de Lagoa da Prata, onde o papel principal cabe mesmo à lagoa central. O rio é apenas para pescadores locais. Parti antes do almoço e subi quase uns 400 km do mapa de Minas. Passei por Bom Despacho – uma organizada e desenvolvida cidade de porte médio que me surpreendeu bastante – e depois por Martinho Campos – um pequeno município bem plano onde há muito vento, muita poeira, muito buraco no asfalto e uma loirinha bonita.

Abaeté, Paineiras, Bocaina, Biquinhas, Morada Nova de Minas. Nesta última cidade, que está numa península da Represa de Três Marias, me enveredei por uma longa estrada de terra em direção ao porto onde se pega uma balsa rumo à cidade de Três Marias. Azarado, cheguei dez minutos depois da balsa ter partido. Resultado: duas horas e meia de espera até a próxima balsa. Pra matar o tempo, fui até o bar do Ismael, que fica ali ao lado do embarque, e lá comi um tucunaré e ouvi um pedaço da história de vida do comerciante.

O bar estava vazio. O Ismael se aproximou com aquele sotaque de belo-horizontino e me ofereceu um tucunaré com salada. Aceitei. Demorei cinco segundos para convencer o vaidoso Ismael a dar uma entrevista bem rápida. Câmera ligada, ele começou a falar. Era motorista de ônibus na capital do estado. Um dia, durante uma excursão, conheceu a Represa de Três Marias e não teve dúvidas: pediu demissão, vendeu o carro, vendeu a casa e veio de mala e cuia com a esposa e a filha. Mais dois canarinhos e dois cachorros, a Raíssa e o Pingo. Comprou o bar, aprendeu a pescar e transformou sua vida.

Isso foi há oito anos. De lá pra cá, Ismael já saiu na coluna social do jornalzinho de Morada Nova, já viu caminhonete com passageiro cair da balsa dentro da represa e já encontrou um morto boiando na margem. Aliás, esse episódio quase lhe rendeu uma prisão, já que Ismael precisou laçar o corpo para tirá-lo da água, o que, segundo a Justiça, configurou adulteração da cena do crime. Ou algo parecido. O fato é que, até Ismael provar que focinho de porco não era tomada, foram bem uns quinze meses.

Depois que a breve entrevista terminou, ele me pediu pra passar o arquivo do vídeo para o computador dele. Obedeci. Enquanto eu almoçava o tucunaré, ele assistiu a sua própria entrevista pelo menos quatro vezes. Detalhe: o áudio do computador estava conectado às caixas de som do bar, o que significa que almocei ao som da entrevista.

A balsa das 16h20 já se aproximava. Paguei a conta. Bati uma foto do Ismael e de sua esposa Piedade. Ao sair do bar, um casal que entrava cruzou por mim e foi recebido com entusiasmo pelo comerciante. Enquanto eu dava marcha à ré no carro, ouvi o Ismael dizer para os amigos: “vocês precisam ver a entrevista que eu acabei de dar...”.

Manobrei o carro dentro da balsa. A minha frente, mil e quarenta quilômetros quadrados de água dourada pelo generoso sol poente. Mais adiante, um pedaço de Brasil a ser descoberto...

8 comentários:

  1. Continuamos a te seguir!!
    Boa sorte e cuidado!

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  2. OOOO mininão!!!

    Um final de semana em Cássia e muitas garrafas d vinho depois, eu tb passo a te seguir daqui! Boa viagem, se cuida e continua nos contando sua história com essa capacidade impressionante de escrever.

    Abração

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  3. J,
    Na próxima você me leva junto??
    Acompanhando tudo por aqui, extremamente maravilhado com a riqueza de detalhes dos seus textos!
    Vamo que vamo.
    Abraço

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  4. eduardo,
    os textos estão ótimos.
    é muito bacana acompanhar a sua viagem e conhecer um pouco desses lugares e personagens tão distantes de nosso mundinho daqui.
    boa viagem.
    abracos
    rogerio.

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  5. Quase que a gente se esbarra no caminho. Estava em Bom Despacho no sábado. Imagina....

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  6. Doarrrdo!!!
    Não tem jeito de aumentar o tamanho das fotos?
    No mais, to achando mto bom o seu relato.
    Vai escrever bem assim pra lá!
    Abraços!!!

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  7. Grão!!!

    Muito jóia!!! A primeira coisa que faço quando ligo o computador é ver se já tem o comentário de mais um dia!!!

    Daria tudo pra estar do seu lado quando fosse entrevistar alguém... "zé ispicula" do geito que vc é!!! deve ser muito divertido!!!

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