terça-feira, 14 de julho de 2009

DIA 05

Se você está em Pirapora e quer descrever a cidade, você pode falar das carrancas e da tradição dessas esculturas de madeira que eram usadas antigamente nas proas dos barcos do São Francisco para espantar os maus espíritos das águas com seus olhos arregalados, orelhas pontudas, caninos enormes e língua pra fora.

Se você pretende enriquecer seu texto, você pode incrementar essa descrição com a história do seu Laerte, um artesão que morava numa rocinha em Brasília de Minas e fazia peixes de barro, até uma tarde de fins de abril, em 1976, quando ele avistou uma carranca ao descer o rio de mudança para Pirapora. Em vez de espanto, ele se fascinou com a imagem e acabou se tornando um grande escultor de carrancas.

Você pode dizer também que ouviu essa história do filho do seu Laerte, o Adão Santos, que aprendeu o ofício com o pai, ainda aos vinte anos de idade, e hoje, aos 53, é um dos artesãos que compõem a associação de carranqueiros de Pirapora. Ele faz carrancas pequenininhas ou de até dois metros de altura. Os preços variam de quinze reais a mil e quinhentos reais. Você pode dizer que comprou uma de quinze reais.
Se você está em Pirapora, você pode falar também da colônia de pescadores, falar do politiqueiro pescador Pedro Melo, das técnicas de pesca do surubim, do dourado e da piranha. E pode falar da antiga ponte de ferro, da vizinha cidade de Buritizeiro e do sorvete de ameixa que você tomou numa manhã bem cedinho.

Se você está em Pirapora, e é curioso e observador, há muito, muito mesmo o que dizer. Mas se você está triste, triste como um domingo de chuva, não faz sentido algum falar sobre qualquer coisa. Seria como usar óculos escuros para esconder olhos marejados. Ou como tocar violino enquanto o barco afunda.

Por isso mesmo você sai às pressas de Pirapora, porque não há lugar melhor para se ficar triste do que dentro de um carro, sozinho, a quase mil quilômetros de distância de casa.

Você retoma o trajeto rumo ao norte, com destino a Ibiaí. E nota que o asfalto exemplar continua contradizendo a má fama das estradas mineiras; e o mato seco e monótono parece querer invadir aquelas retas longas; e o Renato Teixeira te coloca melancólico como o diabo. E você pensa no tempo, no antes e no depois, e você pensa nas horas.

Mas aí, porque a vida ainda consegue ser generosa, você vence o trevo de Ibiaí, avança alguns metros, encara a cidade nos olhos e não tem a menor dúvida de que acaba de encontrar aquilo que você procurava há mais de dois anos...

9 comentários:

  1. vc não poderia colocar 2 posts por dia, nobre amigo errante? ta parecendo um livro bom isso aki, uai!

    ResponderExcluir
  2. Ufa, ainda bem que ninguém precisou chamar a polícia.

    Amarra a carranca de quinze reais no bico do gol!

    Tomara que nesse lugar tão procurado o dia acabe azul...

    ResponderExcluir
  3. Meu Deus... Que que será que tem em Ibiaí. Essa vida de curioso é muito complicada. Isso tá melhor que novela das 8.

    ResponderExcluir
  4. De uma coisa vc pode ter certeza: o seu dia vai terminar azul sim, azul do Cruzeiro Esporte Clube campeão da Libertadores da América de 2009. Tire o Renato Teixeira do som e coloque Clube da Esquina. Ouça Trem Azul e Para Lennon e Mcarteney. Depois siga em frente.

    ResponderExcluir
  5. Pode prender essa carranca na cintura... preparar um porçãozinha de surubim, tomar um Brahma e aguardar o Show de bola do Cruzeiro.
    Tenho certeza que essa tristeza logo irá embora..
    Se cuida.

    ResponderExcluir
  6. Cabeção... tava ino tão bem... pra que esse suspense...
    Por acaso esses olhos são "AZUIS"?
    Pelo jeito vc vai ficar ancorado uma semana no Ibiaí... juízo.
    Grande abraço e sorte (pra Vc e pro Cruzeiro).

    ResponderExcluir
  7. Bão demais ver todo mundo comentando seus posts. Até o Gustavo, que eu pensava que nem usava a internet....hehe. Abraço Narigudo.

    ResponderExcluir
  8. Você tava virado ou acordou antes das 6 pra postar o dia 5????
    tá mudado hein! Pra quem acorda todos os dias depois das 8...
    Vambora.

    ResponderExcluir
  9. Um abraço ao Sr. Adão que comprei uma carranca por telefone e me enviou via correios. Junior Vitória-ES

    ResponderExcluir