quarta-feira, 15 de julho de 2009

DIA 06

Uma cidade bem pequenininha, às margens do São Francisco, que vive da pesca e de um turismo incipiente, onde é possível enxergar o espelho do rio de um banco da praça e onde a pobreza se traduz em simplicidade, não em miséria. Esta era a cidade que eu procurava há tanto tempo. Assim Ibiaí me pareceu logo que entrei aqui ontem. E assim ela me parece hoje, depois que a conheci melhor.

A orla se estende por não mais de um quilômetro, onde há uma avenida bem asfaltada enfeitada por uma fileira de palmeiras. Na calçada, pra quem não tem pressa, é possível se sentar em um dos muitos bancos de tijolo aparente, sob árvores baixinhas, e ficar mirando o rio, a faixa larga de areia e a mata do outro lado da margem.

A paisagem não merece uma capa de revista, mas é de uma beleza genuína e discreta, aquela beleza com a qual convivemos naturalmente no dia-a-dia, que nos agrada sem nos fascinar.

No meio da orla, numa esquina da avenida, a pracinha central de Ibiaí descansa preguiçosa. Há um coreto ordinário, variadas árvores de pouca sombra e canteiros bem cuidados. Ao redor, dois hotéis simples; o mercadinho “Pais e Filhos”; a única construção histórica da cidade, onde há um bar quase muito gostoso chamado "Bar Casarão"; e mais algumas lojinhas com fachadas pintadas a mão. Estão ali também a igreja – discreta, num canto, coadjuvante –, a casa lotérica e a agência do Itaú. E, por fim, a prefeitura, minúscula, onde entrei pedindo licença e com uma insuportável dor nas costas.

Depois de explicar o que me levava ali, a recepcionista me encaminhou até o Geraldo Eustáquio, que é oficial administrativo e conhece bastante a cidade. Marcamos de bater um papo amanhã cedo, já que ele estava saindo às pressas para uma reunião. Por enquanto, o que pude descobrir na prefeitura foram três coisas importantes: a prefeita e a vice-prefeita são mulheres, a recepcionista usa um decote generoso e se parece com uma atriz gordinha da Globo, e na sala de espera há um relógio verde-limão da Imaginarium.

Saí de lá, passei no “Hotel Beira-Rio” – onde havia me hospedado na véspera, pagando vinte reais por um quarto com cama de casal – e fui curtir minha dor nas costas num banco da praça.

Caso um dia você queira vir à Ibiaí, vou te contar o que você vai ver se estiver sentado na praça, no meio de uma tarde quente, sem nada a fazer além de observar.

Algumas pessoas de bicicleta e outras se protegendo do sol com sombrinhas. Meia dúzia de carros por minuto, no máximo. Silêncio. Motos. O reflexo do sol no rio verde. Um hippie perdido vendendo pulseirinhas de couro. Dois pedreiros, um monte de tijolos e uma muretinha em construção. Três pescadores carregando remos enormes. E cinco varredoras de rua varrendo uma praça que é menor que a metade de um campo de futebol.

Você verá também, lá na esquina de frente para o rio, aquele bar quase muito gostoso, que fica numa casa antiga toda verde, em que as janelas são cor de laranja e os beirais, violetas. Se entrar no bar, você notará um pôster do Elvis Presley e, atrás do balcão, a Fabiana, uma jovenzinha cuja história curta já daria um livro. E talvez um dia dê mesmo.

Como eu já tinha estado ali ontem, não foi estranho a Fabiana me trazer uma Skol e ficar em pé ao lado da mesa, ensaiando um começo de prosa. Eu silenciei, enquanto ela falava sobre a festa “Garota Raio de Sol”, sobre os afogamentos no rio e sobre o que fazem os jovens de Ibiaí numa noite de segunda-feira. E quando o orelhão da esquina tocou e ela foi atender, eu fiquei sozinho pensando na história daquela loirinha sorridente que tem uma fada tatuada nas costas.

Fabiana estudou até a oitava séria e depois se mudou para Belo Horizonte, naquele movimento óbvio de quem não tem nada e parte rumo a um sonho tão bonito quanto ingênuo. Lá ela morava com a prima, dançava forró no Alambique e queria um dia ser jornalista. Mas no meio do caminho tinha um rapazinho, uma gravidez e um celular que permaneceu desligado durante as duas semanas em que ela telefonou repetidas vezes.

E como a vida é irônica e trágica em proporções idênticas, e há na bomba sempre um silêncio reconfortante antes da explosão, Fabiana conheceu um homem onze anos mais velho que não se assustou com sua barriga de cinco meses. Ele se chamava Airton, tinha um cavanhaque, um terreno em João Monlevade e uma moto. E morreu num acidente na Via Expressa no dia em que trocaria alianças com Fabiana.

BH se tornou grande demais, e então Fabiana voltou para o interior. O filho recém-nascido se mudou pra Pirapora junto com sua mãe e seu padrasto. Ela permaneceu em Ibiaí, porque o salário de empregada doméstica lá é menor que os ganhos aqui, como garçonete no bar da tia. Fabiana ficou, mas não desistiu.

Ela reaparece de dentro do bar e traz um álbum de fotografias. “Eduardo, você quer ver minhas fotos?”. Vejo o filhinho de fraldas; um garotinho do Belvedere, de quem fora babá; o Airton segurando um capacete; ela aos oito, ela aos quinze, ela aos vinte e três. Tudo ali, organizado com carinho numa desordem danada.

Minhas costas continuam doendo, e quando acabo de folhear as fotos, noto que Fabiana já está sentada ao lado. Ela pega o álbum da minha mão e pergunta se conheço Arcos. Digo que passei pela cidade alguns dias atrás. E ela me fala que seu namorado mora lá. Namorado? Tão longe assim? “Ele esteve aqui dois meses atrás e a gente começou a namorar. Eu ainda não decidi se quero namorar, mas ele já disse que quer. Na verdade, eu queria mudar com ele pra BH e voltar a estudar... Quem sabe, né?”. Quem sabe...

Chega uma Kombi do DER-MG, da qual saltam quatro funcionários uniformizados. Fabiana se levanta para atendê-los e, antes de se afastar, deixa o comentário como quem deixa um copo sobre a mesa: “o único problema é que ele é casado...”.

Eu a observo servir uma cerveja aos quatro fregueses. Ela sorri, como sempre. E eu tenho a certeza triste de que ela jamais sairá daqui. Viro a cadeira para o lado da orla e vejo que o rio está completamente escuro. Talvez fosse possível ouvi-lo correr, se o som da Kombi não gritasse uma música do “Jorge e Matheus”.

Pago a conta e saio à procura de uma farmácia. Eu preciso de um Dorflex.

6 comentários:

  1. Meu Deus, coitada da Fabiana. Ela que anda precisando de uma carranca, se eu fosse vc, tinha a dado sua a ela.
    Mais triste que ela só a nação cruzeirense hoje. Nem colocando o Gustavo Luvizotto, o time aprumou o corpo.
    Qto a vc Eduardo, estaremos em Cássia nesse final de semana, será que já poderemos ouvir todas essas histórias ao vivo?

    ResponderExcluir
  2. Que zica seu time... Dorflex tb cura dor de cabeça???

    ResponderExcluir
  3. Acho que a Fabiana tava de olho em outra pessoa! Depois você conta como foi o fim da noite no Hotel Beira-rio, hehe!
    Garanto que você deve ser um diferenciado por essas bandas dai. Todo boa-pinta, bom papo, interessante! Se conversar com jeito, traça até o padre!(PESSOAL, ISSO É UMA BRINCADEIRA!)
    Sem comentários sobre o seu "novo" time, pelo jogo de ontem não merecia ganhar nem o campeonato municipal de Ibiaí!
    Abraço

    ResponderExcluir
  4. ich, mas to gostando demais disso aqui!!!

    Vai que vai...

    ResponderExcluir
  5. Ninguém riu da minha piada, colocaram o "Gustavo" no time do Cruzeiro, o véio do Athirson..

    ResponderExcluir
  6. Sou de Ibiaí, mas não moro mais lá, adorei tudo que escreveu, você descreveu a realidade de uma forma tão...fascinante, obrigado por mostrar tudo isso para milhares de pessoas!

    ResponderExcluir