Telêmaco nasceu em São Romão e partiu de lá aos dezesseis anos. Viveu em Montes Claros, Belo Horizonte, Salvador, São Luis e Brasília. Viajou de carona por todos os estados do Nordeste até chegar ao norte do Piauí. E, no meio disso tudo, trabalhou no Bemge, pintou camisetas no Pelourinho, fez cursos de artes plásticas no MAM, arrumou uma mulher, teve dois filhos, e foi trocado por um representante comercial.
Mas agora Telêmaco está de volta e me recebe em sua casa ao som de Belchior. Ele me leva até uma salinha bem rústica, me aponta um sofá e se senta num banco feito de garrafas PET recicladas. Eu ligo a câmera e ele começa a contar um pouco da história desta velha cidade de 341 anos.
E antes que eu diga o que o Guimarães Rosa, um milionário pedófilo e um vapor do Mississipi têm a ver com isso tudo, eu vou explicar como eu cheguei até o Telêmaco.
Quem desce da balsa de São Romão encontra uma orla decadente formada por meia dúzia de construções com vidros quebrados e tinta gasta. A aparência melhora depois de uma esquina, onde uma avenida brota do rio e se estende perpendicularmente a ele, com seu calçamento de paralelepípedos e enormes palmeiras imperiais nos canteiros. Bem no comecinho dessa avenida, há uma pequena praça, dois botecos e uma padaria de cá, e outro boteco e uma pizzaria de lá.
Isso tudo eu fui descobrindo aos pouquinhos. Primeiro, eu avistei uma padaria bonitinha no início daquela avenida. A padaria destoava do comércio local e pertencia a um casal de irmãos que juntou dinheiro durante cinco anos de trabalho em Londres e depois voltou pra montar o negócio na cidade natal. A dona, eu não conheci; o dono, vestia uma camisa do Arsenal, cafungava feito um cocainômano e era a cara do Felipe Massa. Chamava-se Jair e gostava de falar mais de Londres do que de São Romão. Mas pelo menos ele me disse que havia por ali um sujeito que pintava quadros e entendia das coisas. Apontou para a casa da esquina, onde mora Telêmaco.
E assim voltamos para a salinha rústica de paredes de barro bem pintadas de branco, onde estávamos a ponto de ouvir Telêmaco contar um pedaço da história de São Romão.
Ele guarda vários mapas, ilustrações e anotações sobre o passado de sua cidade. E sabe que o município desempenhou um papel importante na colonização do interior do Brasil – e depois nas relações comerciais entre as regiões – já que sua localização privilegiada, no entroncamento de vários rios, fazia de São Romão um ponto de passagem de muitas embarcações. Inclusive o lendário Benjamim Guimarães, um vapor que chegou ao São Francisco no início do século passado vindo direto do Mississipi, e que navegava entre Pirapora e Juazeiro, na Bahia. Este barco ainda resiste, e de vez em quando atraca em São Romão, chegando de Pirapora num passeio turístico.
O vapor não é o único Guimarães ligado à biografia local. Há também o Rosa. As veredas eternizadas em seu “Grande Sertão” ficam alguns quilômetros a noroeste de São Romão. Telêmaco diz que as comitivas de gado de Manoelzão e companhia costumavam parar na cidade para dormir num prostíbulo de fama histórica.
Aliás, a prostituição é um ponto negativo e evidente em São Romão. Se você está aqui numa noite qualquer, e não está sofrendo com um jogo de futebol que assiste numa televisão de quatorze polegadas, você pode correr os olhos pelas bordas da pracinha central e perceber pelo menos meia dúzia de garotas a espera de uma turma de pescadores de Marília, Uberaba ou de qualquer outro lugar.
Essa cena se repete em quase todas as pequenas cidades às margens do São Francisco. O que as outras cidades nunca tiveram, e São Romão já teve, é um fazendeiro milionário tarado em adolescentes virgens. Telêmaco comenta que a obsessão do senhor Antônio Luciano Pereira Filho estimulou muita prostituição em São Romão. O que ele também fazia em Belo Horizonte, onde era dono de metade dos imóveis do centro, ganhou fama e acabou virando personagem na minissérie “Hilda Furacão”. Ele morreu aos 93 anos, com 32 filhos, muita terra, muito dinheiro e duas mil ex-virgens no currículo. Há quem diga que ele engravidou uma de suas próprias filhas, sem saber o que fazia...
Telêmaco conta todas essas histórias de um jeito de quem já contou várias vezes. E sempre com um tom crítico, o mesmo que ele mantém em relação a quase tudo na cidade que ama. O povo preguiçoso, as intrigas da política, as fofocas, etc.
Depois de passar trinta anos numa vida de aventuras, errância hippie e alcoolismo, hoje Telêmaco parou de beber, está casado, com aliança no dedo e tudo, e seu maior sonho é ser pai de novo, aos cinqüenta anos, assim que terminar de reformar a casinha que comprou há um ano.
Quando eu me despedi dele, após uma hora de histórias, saí com a impressão de que, se ele não existisse, eu precisaria inventá-lo como personagem.
E então eu embarquei na balsa novamente e, pra evitar problemas, preferi percorrer os cento e dez quilômetros de asfalto, a me arriscar nos cinqüenta e três de terra.
No trajeto rumo a São Francisco, eu fui relembrando todas as coisas que eu vi e ouvi na cidade cheia de passado que eu acabava de deixar. E cheguei à conclusão de que, mesmo que eu tivesse visto prostitutas de fraldas e pingüins tomando sol às margens do rio, minha lembrança mais forte de São Romão continuaria sendo a de um silêncio imprevisto ocupando o espaço reservado para a felicidade: São Romão será pra mim, acima de tudo, o lugar onde vi o Cruzeiro desperdiçar uma Libertadores dentro de um Mineirão azul; onde assisti ao jogo no bar de um bocó sorridente que fez questão de me dizer que seu apelido era Galoucura.
E segui pra São Francisco...
nao pude segurar o riso nesta ultima frase
ResponderExcluirEdu, vc consegue nos emocionar, fazer rir, divertir ou ate matar o tempo durante uma cirurgia ou outra...
enfim, um sucesso seus textos! será que a dona Cristina ta acompanhando??
Confesso que senti uma pontada no coração com o último parágrafo. Ainda estou lambendo as feridas tb. Abraço.
ResponderExcluirRealmente a cada dia, me surpreendo pelo dom que vc tem!
ResponderExcluirShow de bola!
Xiii melhor não falar de bola...
Que tipo de jornalista é você que repete lendas como se fossem verdades? Qual a prova de o meu pai possuiu 2.000 virgens? Que tipo de jornalista é você que se impoe como julgador e rotula o meu pai de TARADO? Você não tem material histórico para transformar lendas em fatos. Dona Maricota quando conta um conto aumenta um ponto. Eu suponha que jornalistas estivessem acima da maricotagem. Quer um conselho? Saia do lugar comum. Pare de repetir lendas. Se quer informar, pesquise. Busque os fatos. Faça um trabalho sério. Por detrás dessa teia há muito mais enredo do que possam supor todas as matérias irresponsáveis já até então veiculadas na mídia. Já passou da hora da nossa vida deixar de ser folhetim. Não somos personagens de cordel. Somos seres humanos com sentimentos e aviltados pela ganância da sociedade em apedrejar e se fartar dos nossos infortúnios. Meu pai estimulou a prostituição? E onde estavam os pais dessas prostitutas? Onde andavam as famílias? Meu pai comprava virgens? Talvez. Mas não deixe de se lembrar que para uma demanda há uma oferta. Lembre-se de ressaltar a iniquidade dos pais e mães que comerciam suas filhas. Meu pai tinha defeitos de carater? Possível, mas não deixe de ressaltar que o contexto nunca foi inocente. Inclua a torpeza da sociedade no conjunto.
ResponderExcluirE, a propósito: Meu pai não morreu aos 93 anos de idade, não era "dono" da metade de Belo Horizonte e foi pessimamente retratado na série Hilda Furacão. Ele jamais usou correntes de ouro no corpo e nunca passou tardes alisando uma jaguatirica. Meu pai criava duas jaguatiricas em seu apartamento quando já era um homem idoso. Essa associação das jaguatiricas à luxúria foi mais um devaneio de um escritor irresponsável. Eu vi e vivi esses momentos. Aquele homem que a Globo veiculou não era o meu pai.
Atenciosamente.
Lara Luciano
Eduardo, sou de São Romão, mas moro em BH, adoro ler histórias sobre minha cidade. Telêmaco realmente é um personagem que se não existisse deveria ser inventado, pois é uma figura extraordinária e fenomenal. Se são lendas ou não, quem tem bons ouvidos gosta de ouvir histórias. Como sou jovem não posso confirmar algumas histórias. Mas eu já naveguei no vapor Benjamim Guimarães, sei que existem mesmo essas garotas que gostam de acompanhar os pescadores, mas temos que respeitá-las e jamais apedrejá-las, pois cada um sobrevive como pode. Mas foi muito bom encontrar seu blog, ler essa história que me deixou muito emocionada. Parabéns!
ResponderExcluirEi rapaz, adorei a postagem também, sou de São Romão, e também sei a figura que é Telemaco e ele como ninguém retratou bem essas histórias que foram fatos reais ou lendas, mas que marcam na história desse misterioso lugar.
ResponderExcluirPs: Também ri muito no último parágrafo... galoucura, fala sério...