sábado, 18 de julho de 2009

DIA 09

Eu sempre achei a beleza do pôr-do-sol perigosa, justamente porque é inquestionável e universal, o que faz dela uma beleza fácil e, não raro, vazia e gratuita. A gente sabe que os atalhos oportunistas para a emoção e o prazer estético têm destino certo: a pieguice.

Mas eu preciso confessar que não me lembrei disso quando estava de costas para a igreja matriz de São Francisco, encarando o rio em frente à espera do sol se despencar do outro lado das águas. Os mais cínicos podem dizer que, no final das contas, é sempre a mesma coisa: ele vai descendo, descendo, e pronto. Eu prefiro, pelo menos desta vez, me render e dizer que, assim como o diabo, a beleza está nos detalhes. E o pôr-do-sol na cidade de São Francisco é caprichado como uma cena ensaiada.


Quem me falou da fama desse pôr-do-sol e me indicou o melhor ponto para assisti-lo foi o Genivaldo, que é recepcionista do “Hotel Atalaya”, é cruzeirense roxo e é presbiteriano.

Eu cheguei ao hotel depois de dar uma volta demorada por São Francisco. A cidade de cinqüenta mil habitantes não demonstra o desenvolvimento de Pirapora, nem tampouco parece aproveitar muito seu potencial turístico, mas me deu a impressão de ser mais bonitinha, limpa e organizada. Muita gente circula pelas ruas comerciais e outras pessoas caminham pela orla, onde está a igreja matriz – construída estrategicamente de frente para o rio – e onde é possível comer bem e barato no restaurante “Peixe Vivo”, que fica numa construção suspensa bem em cima do São Francisco.

Assim que escureceu, eu guiei até a “Praça dos Pescadores”, que é novinha em folha e está logo no final da avenida que margeia o rio. Ali há dois bares simples e arrumadinhos que distribuem mesas de plástico sobre um gramado que chega até o rio. E há também um filé de surubim gostoso; uma cozinheira velha que de vez em quando sai da cozinha e fica encarando o rio escuro; e um senhor solitário que toma cerveja no balcão e oferece sua porção para os desconhecidos ao redor.

Saí da praça tarde, com duas páginas escritas, meia dúzia de fotografias e uma azia danada. Ao entrar no hotel, pude ouvir um hóspede chato dizendo para o Genivaldo que tinha sido açougueiro por doze anos e que, depois disso, resolveu virar vegetariano.

Dormi.

O maior defeito de São Francisco é que em todo o lugar que você vai as pessoas comentam a final da Libertadores da América. E você praticamente vê camisas do Atlético caindo das árvores...

E então hoje cedo eu vim pra Januária. No trajeto de lá pra cá, não existe nada mais impressionante do que o preço do litro de álcool num posto de Japonvar.

Januária fica depois de uma ponte longa que passa sobre um pedaço largo do São Francisco. A cidade é a maior das margens mineiras do rio, com sessenta e poucos mil habitantes, e não é tão antiga quanto podem sugerir algumas de suas ruas estreitinhas, os calçamentos de pedra e um ou outro casarão bem conservado. Quem vai à “Rua da Cultura” e vê suas lojinhas de artesanato e coisas parecidas, sabe do que estou falando.

Uma faixa de terra e matagal de quase duzentos metros, que se intromete entre a avenida beira-rio e o São Francisco, enfeia a orla de Januária. Pra compensar, do outro lado da água se forma um enorme banco de areia que justifica a fama local de “praia dos mineiros”. De longe, dá pra avistar muitos quiosques de sapé, muita gente e muitos barquinhos indo e vindo.

A pequena região que compreende esta avenida à beira-rio e suas cercanias é conhecida por aqui como “cais”. Com alguns bares e restaurantes, além de três ou quatro hotéis e comércio em geral, o local é mais movimentado e estruturado do que qualquer outro que eu tenha visto até agora.

É nesta avenida que está o “Viva Maria”, um hotel gostoso com estilo praiano e uma piscina de frente para o rio. Fui pra lá doido pra me hospedar num lugar decente depois de muitos dias. O recepcionista fez questão de me contar tudo o que o hotel oferecia, me falar o preço relativamente barato e, só no momento em que eu ia ao carro buscar as malas, completar dizendo que não havia vagas. Tentei, então, a “Pousada Sesc”, e lá também estava cheio. O mesmo aconteceu no “Hotel Rondônia”.

Minha última possibilidade razoável se chamava “Hotel Sobradão”. Entrei e não encontrei ninguém no balcão da recepção, mas sentado no sofá ao lado avistei um velhinho de boina e calça xadrez que, sozinho e entusiasmado, cantava “eu vou pra maracangalha, eu vou! Eu vou de chapéu de palha, eu vou!”. Ao me ver, ele se levantou e disse: “pois não?”. E eu pensei: “é aqui que eu vou ficar”.

Uma hora depois eu estava bisbilhotando a noite de Januária. Da churrascaria onde me sentei, avistei muitos carros passando pela avenida, muitas mesas distribuídas por tudo quanto é calçada das imediações, e muita gente lotando os bares ao redor. A noite em Januária é barulhenta. No bar vizinho, uma bandinha tocava Lulu Santos, Norah Jones e Djavan; do outro lado da rua, o som de uma Palio Weekend cuspia uma música chata que parecia ser a mesma por duas horas.

Os garçons da churrascaria também me chamaram a atenção. Dois deles. O primeiro era um senhor agradável. Garçom com cara de garçom. Ele fazia questão de dizer pra você: “pedi na cozinha pra porção vir caprichada”. E quando o Jornal Nacional anunciou alguma coisa sobre a saúde do José Alencar, ele caminhou discreta e respeitosamente até a televisão do restaurante, aumentou um pouquinho o som, ergueu a vista e ficou ouvindo a notícia com os braços pra trás.

O segundo garçom era um rapaz de vinte e poucos anos. Ele se aproximou de mim ao me ver fechando um mapa sobre a mesa. “Este mapa aí tem São Paulo?”. “Não, por quê?”. “É que eu sou de Araraquara e eu queria saber mais ou menos qual a distância daqui pra lá”. Eu franzo a testa. Ele continua. “Eu vim de lá faz um ano e meio, pra cuidar da casa da minha avó, que teve que ir pra Ribeirão Preto fazer um tratamento no HC. Depois ela morreu, meu pai foi demitido e veio com minha mãe pra cá resolver uns negócios de terreno. Agora meu pai trabalha na churrasqueira e eu sou garçom. Eu nunca mais voltei...”.

Eu olhei pra ele sem saber se sentia pena ou não. O melhor que eu pude fazer foi abrir o mapa de novo e dizer: “se São Paulo estivesse neste mapa, Araraquara seria mais ou menos aqui”. E indiquei um ponto imaginário, cuja distância até o risco que circulava Januária deveria ser de umas duas réguas de trinta centímetros.

Voltei para o hotel com essa história na cabeça. E quando cheguei à recepção, encontrei o velhinho de boina cantando “Ó jardineira por que estás tão triste? Mas o que foi que te aconteceu?...”.

2 comentários:

  1. Pelo menos dessa vez vc comeu carne, já tava enjoada do surubim...

    brincadeirinha

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  2. Porque vc não ensina o hino do Malelementos pro velhinho de boina?

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