E pra chegar até o banco de areia, que fica do outro lado da margem, paguei cinco reais para um rapaz me levar de canoa.
A correnteza era mais forte do que parecia lá de cima, o sujeito remava de pé, balançando bastante a canoa estreita, e no meio do caminho, depois de cinco minutos de prosa, descobri que ele estava bêbado.
Quem sobrevive ao trajeto de canoa encontra do outro lado uma praia com cara de praia. A faixa de areia é bem larga, há uma quantidade razoável de banhistas e há quatro ou cinco barraquinhas de sapé onde é possível almoçar, beber, beliscar ou simplesmente fugir do sol. E como o rio em algumas partes corre apressado, a água em frente à praia é marcada por bóias de segurança, e muitos salva-vidas uniformizados desfilam vaidosos pela areia.
Lá eu conheci o Antônio Francisco, um pescador de cinqüenta e oito anos que aproveita a temporada para ganhar um dinheiro extra como segurança na praia. O Antônio é um negrão cheio de passado que adora contar histórias. E seu amor por Januária é um amor de pai, não de filho.
Ele é filho de um pescador e de uma lavadeira que lavava as roupas “da sua freguesia” nas águas do São Francisco. O rio sempre foi o quintal da sua casa.
O Antônio me disse muitas coisas. Por ele, eu soube que as praias de Januária desaparecem todos os anos e que, de tempos em tempos, reaparecem em outro lugar; soube que a temporada de pesca de 1979 foi antológica, quando “meninos pescavam surubim de trinta quilos”; e soube também alguns causos da “Ilha do Pedro Preto”.
Antônio tira histórias do bolso e as empacota com nostalgia. Ele ama Januária, mas parece amar mais a cidade de ontem. “Hoje em dia tem muita droga e muito sexo. Parece que o sexo está na moda! Só pode! O sexo está na moda! Meu pai já dizia ‘ai que saudade dos militares...’”.
Antes da gente terminar o papo, eu pergunto pra ele a idade de Januária. Ele pensa alguns segundos e se assusta por não se lembrar. Eu digo “tudo bem, depois eu procuro na internet”. Mas o Antônio continua inconformado e, ao se despedir de mim, daquele jeito tão educado e quase submisso, ele parece pedir desculpas pelo esquecimento bobo.
Eu fiquei na praia mais meia hora, escrevendo, observando e me confundindo na poluição sonora que vinha dos quiosques. Quando eu saía para pegar a canoa de volta, vejo o Antônio se aproximando com uma expressão de vitória. Ele chega e fala: “Tem 176 anos”. Eu sorrio e agradeço. E ele vai embora dizendo baixinho pra si mesmo: “como é que eu fui me esquecer da idade da princesinha, meu Deus?”.
Uma hora depois, ao deixar o “Hotel Sobradão”, não encontro o velhinho de ontem na recepção. Quem atendia era uma menina tão nova que poderia ser sua bisneta. Mas depois o avistei num banco da praça, e ele estava sozinho e em silêncio.
Dirigi cinqüenta minutos até Itacarambi, uma cidade de vinte mil habitantes que me surpreendeu em vários aspectos, a começar pelo fato de não ter cara de fim de mundo. Pelo contrário. Esta cidade de ruas de pedra e céu muito azul é vaidosa e gosta de se cuidar.
Com o privilégio de contar com um pedaço largo do São Francisco ao seu lado, Itacarambi capricha em sua orla: há uma pracinha de jardins muito verdes e uma quadra de futebol bem iluminada. Na calçada que circunda a área, o pedestre encontra placas com frases do tipo “seu sistema circulatório depende de uma boa caminhada” ou “proibido andar de bicicletas. Multa: R$ 20,00”. Poucas centenas de metros adiante está o cais, onde há dois botecos movimentados, uma outra quadra de futebol, e uma grande escadaria de concreto que desce até o nível da água.A vaidade pueril de Itacarambi também está estampada na praça central, onde se vê estátuas da Branca de Neve e dos sete anões espalhadas pelos canteiros, e onde os bancos são coloridos e personalizados. Há, por exemplo, um banco para uma única pessoa, em que se lê “banco dos solitários”. Há o “banco dos namorados”, em formato de coração; “dos encalorados”, que é todo furado; “dos aposentados”, com um apoio para os pés; “dos intelectuais”, “dos desconhecidos”, e assim por diante...
E Itacarambi tem também a “Pousada Buritizal”, que é bem gostosa e está sem nenhum hóspede além de mim. Pelo menos, hoje. Ela foi criada quase como um hobby, depois do proprietário – um funcionário da Petrobras de Montes Claros – passar vários anos freqüentando a cidade para pescar com o tio. Ele se chama Aníbal e é uma peça rara.Quem vê o Aníbal, vê um sujeito de óculos, de camisa desabotoada e com uma latinha de Itaipava na mão. Quem conversa um minuto com ele, percebe que se trata de um sujeito extrovertido e brincalhão. E quem conversa uma hora, descobre que ele não queria ter quarenta e oito anos de jeito nenhum.
Assim que cheguei e me apresentei, e antes que qualquer intimidade pudesse ser estabelecida, ele me deu dois tapas nas costas e disse: “rapaz, isso aqui é o paraíso, tem mulher pra caraaaalho”. Depois me apresentou os dois filhos, que estudam fora e passam férias na cidade. Além deles, apenas uma funcionária na pousada.
Pai e filhos bebiam cerveja ao lado da piscina. Quando prestei atenção à cena, imaginei três irmãos. Aliás, em alguns momentos, os filhos pareciam pai do pai, numa relação bagunçada que não deixava de ser bacana e bem resolvida.
Uma hora mais tarde, eu já não sabia se estava numa pousada ou na casa de um amigo. E enquanto a gente comia um churrasco, o Aníbal saiu pra atender ao telefone e voltou com os olhos brilhando por trás dos óculos.
Três garotas em idade universitária chegaram antes que a gente terminasse a próxima lata de cerveja. Elas eram amigas do Aníbal, estavam de férias em Itacarambi, dançavam forró, bebiam caipirinha e não eram lindas. E eu fui apresentado assim: “este aqui é meu amigo escritor”. Então, tá.
Quando escureceu, e a pousada ficou vazia novamente, eu me deitei na rede e comecei a escrever este texto. Eu pensava na melhor maneira de descrever o Aníbal e aquele seu jeito espalhafatoso de tentar enganar seu tempo, quando ele apareceu e me disse: “Larga esse computador aí, sô. Você não quer ir com a gente no aniversário de um amigo meu da maçonaria? Depois a gente pode passar pra ver o movimento no “Chico’s Bar” e, pra fechar a noite, ainda tem uma festinha no cais...”
Então, tá.
Hum... vamos ver o que rolou nessa primeira baladinha do nosso amigo aventureiro!
ResponderExcluirto confiante!!!!! rs!!!!
ResponderExcluirIh, tenho certeza que você não vai descrever o que realmente rolou nessa baladinha maçônica. Vai falar das estradas, das cidades, das almas - se possível - dos habitantes. Mas nada de boataria. Tô ansioso por ver um post tipo Caras. Vai fundo!
ResponderExcluirabraços,
Thiago M.