segunda-feira, 20 de julho de 2009

DIA 11

O alambique do Seu Nem fica a oito quilômetros de Itacarambi. Pra chegar lá, você pega uma estrada de terra, cruza um povoado minúsculo, supera três encruzilhadas traiçoeiras, passa por mais meia dúzia de casebres e uma quadra de futebol empoeirada, e só então estaciona o carro embaixo de uma sombra gorda que refresca a entrada da casa do Seu Nem.

Pra não correr risco de errar, é melhor você ter ao lado a Maria Lúcia, uma professora de geografia de Itacarambi que conhece toda a região e adora fazer visitas ao mestre da cachaça local.

Gritamos “ô de casa!” e aparece uma mulher muito gorda e peituda segurando um copo de caipirinha de abacaxi. Pela prosa familiar entre ela e a Maria Lúcia, descubro que se chama Sônia, dá aulas na mesma escola que a amiga, e é uma das cinco filhas do Seu Nem. Ela nos leva pra dentro de casa e já começa a me chamar de “filho”.

A casa é estreita, espichada e sem forro, e lá na sala a gente encontra a mulher do Seu Nem, uma senhora enorme e cega, que está sentada diante da televisão escutando o jogo da seleção brasileira de vôlei. Com paciência e carinho, a Sônia explica pra mãe o que eu fazia ali, e ela então se vira pra mim e pergunta: “você é famoso?”.

O Seu Nem estava trabalhando no alambique e saímos atrás dele seguindo a Sônia e seu copo de caipirinha. No caminho, passamos pelo barracão que abriga o engenho, o motor e alguns montes de cana. No meio dessas coisas, chama a atenção uma caldeira inglesa enorme e antiqüíssima que até uns quinze anos atrás gerava energia para o engenho. A caldeira é tão grande e tão antiga que não tem como a gente não perguntar: “como é que esse troço veio parar aqui?”.
A partir do barracão, um cano suspenso leva a garapa até o alambique, que fica uns vinte metros mais abaixo. Pra chegar lá, a gente caminha entre uma galinha e outra, e quase sempre debaixo de sombras fresquinhas. E então encontramos o artista diante de sua obra.

Seu Nem produz cachaça no mesmo alambique há mais de sessenta anos. E o alambique já produzia antes dele, uma vez que o negócio começou com seu pai. As décadas de repetição e experiência fazem com que Seu Nem execute seu trabalho com a naturalidade de quem respira. Ele trabalha em silêncio e, mais do que qualquer outra coisa, observa com olhos clínicos e ainda admirados.

Aos oitenta anos, sua memória parece reconstruir o passado apenas em fragmentos. Seu Nem fala com pausas, de um jeito cansado, apesar de atencioso.

A vida de antigamente ele resume assim: “antes tinha mais gente, chovia mais e as coisas tinham mais valor”.

Na infância, ele era proibido pelos pais de entrar no rio São Francisco, por causa da correnteza perigosa. Depois que ficou mais velho, não sentiu vontade de mergulhar naquelas águas e hoje, octogenário, confessa que “nunca se banhou no rio”, mesmo vivendo uma vida às suas margens.

Pelos pedaços de história que conta, dá pra deduzir que foi um jovem festeiro e mulherengo, e que sua produção de cachaça viveu dias de sucesso e fartura. Décadas atrás, ele produzia duzentos mil litros por ano e vendia quase tudo para Januária, onde sua cachaça era engarrafada e ganhava rótulos que se tornaram tradicionais com o tempo.

O alambique que já empregou dezoito pessoas hoje funciona com Seu Nem e mais três ajudantes. A produção não passa de duzentos litros semanais, e o engenho segue moendo a cana muito mais para manter Seu Nem de pé do que por qualquer outro motivo.

Quando a entrevista vai perdendo fôlego, Sônia, que havia deixado o alambique minutos atrás, reaparece com mais dois copos de caipirinha. Ela oferece um pra mim e outro pra Maria Lúcia. Seu Nem aproveita a dispersão para se levantar e ir abastecer o forno com mais lenhas. Nós três ficamos o observando trabalhar.

Enquanto isso, Sônia nos diz que a maior preocupação de seu pai é a continuação do alambique. Como ele só tem filhas mulheres, teme que a produção um dia cesse. E a produção, mais do que sua vida, é seu legado.

Eu me aproximo do Seu Nem e pergunto se seria possível ele me acompanhar até o barracão para que eu tirasse uma foto dele em frente à caldeira. Ele olha pra mim com aquela expressão de quem sofre para dizer não e se explica: “eu não posso meu filho; agora eu preciso ficar aqui vigiando a cachaça pingar...”. Eu compreendo.

Percebo que é hora de ir embora e me despeço. A Sônia me dá um abraço apertado e suado e pergunta se eu quero beber mais. Nesse meio tempo, Seu Nem some dentro da sala da fermentação e sai de lá com uma garrafa PET cheia de cachaça. De um jeito sincero e humilde, ele diz: “é presente pra você”. Eu agradeço, bato uma foto ali mesmo e vou embora.

Minha última imagem do Seu Nem é ele sentado no banco em frente ao alambique, sozinho e em silêncio, observando a cachaça nova pingar sem pressa dentro do garrafão. Ele tem nos olhos a admiração e o compromisso de uma vida.

No caminho de volta, Maria Lúcia foi me contando coisas sobre a região e sobre sua vida. Ela me falou dos sítios arqueológicos do Parque Nacional de Peruaçu e do ataque de abelhas que sofreu quando esteve por lá fazendo rapel. E ela falou da reserva indígena dos Xacriabás e de como seu avô morreu de ataque cardíaco e sua avó, de derrame, praticamente na mesma semana, dois meses depois dos dois se mudarem da roça para a cidade. Maria Lúcia falou bastante e, quando a deixei na porta de sua casa, ela insistiu muito para que eu ficasse pra almoçar. Agradeci e segui pra Manga.

Durante uma hora e meia rodei sobre uma estrada de terra cansativa. Cruzei um povoado chama “Ranchão”, onde parei o carro e fotografei alguns moradores locais, que ficam sentados na porta de suas casas assistindo à vida passar pela estrada. Duas gordinhas tímidas na janela escura de uma casa de barro; cinco amigos sentados em volta de uma garrafa de pinga; uma negra forte e cansada que me disse que não faz mais nada na vida além de cozinhar e esperar.

Saí do povoado com uma sensação estranha e percorri mais alguns quilômetros até a estrada invadir um lugarejo chamado São João das Missões, cidadezinha do primeiro prefeito indígena do Brasil. Quem passa lá vê uma borracharia que vende cerveja, um pequeno banco de crédito dentro de uma bicicletaria, e uma biblioteca municipal que enche a gente de esperança.

Continuei escalando o mapa de Minas até chegar à cidade de Manga, o ponto mais distante desta viagem. Entrei na cidade com a boca seca de sede, o carro empoeirado até dentro do porta-luvas, e mil seiscentos e sessenta quilômetros rodados. Apesar de consciente de todo o caminho de volta ainda a ser vencido, meu cansaço era o cansaço de um fim de viagem.

Eu encontrei a cidade completamente vazia, o que me chamou a atenção enquanto circulava por suas ruas largas e planas. Então guiei até a orla e me hospedei na “Pousada Velho Chico”, que é bem apresentável e fica pertinho do cais.

Por enquanto, posso garantir que Manga não tem nada melhor e mais interessante do que este quarto arejado e esta cama muito enorme e muito branca. Já está ótimo...

2 comentários:

  1. E da balada com o Aníbal, nada mesmo.

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  2. Eu bem que disse que a balada ia ficar sem comentários. Esse Edu é mineiro mesmo.
    Traga a pinga pra gente, hein?

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