quarta-feira, 22 de julho de 2009

DIA 12

A cidade de Manga representa o final da linha desta viagem. O pedaço de mundo em que eu mergulhei pra conhecer pessoas, histórias, imagens e jeitos de ser termina naquele lugar.

E justamente por ser o ponto derradeiro, cheguei a Manga exausto e com a cabeça mais no passado e no futuro do que no presente.

Pra não passar em branco, contudo, hoje cedo circulei de carro pela cidade. Eu não posso dizer muita coisa, além de que Manga tem ruas largas de paralelepípedos, tem um centrinho comercial onde as lojas tocam música baiana em volume alto, tem uma lan-house com computadores sem Word e sem internet, e tem também o irmão da Rosali, que é delegado e pastor ao mesmo tempo. Acho que Manga não tem manga.

Meia hora mais tarde, estacionei o carro no pequeno porto da cidade, esperei cinco minutos na fila para entrar na balsa, e cruzei o rio São Francisco pela nona e última vez nesta viagem. Depois de onze dias de jornada, eu começava a me aproximar de casa.

E durante a travessia curta de dez minutos um sujeito baixinho de bigode saiu de dentro de um carro velho e sem placa e veio até mim perguntar se eu poderia levá-lo de Matias Cardoso até Jaíba, porque ele achava melhor não circular com seu automóvel sem documentação. Eu olhei pra ele e disse: “eu adoraria, mas vou pra Mocambinho visitar uma tia muito velha e muito doente”.

A primeira cidadezinha do outro lado do rio é justamente Matias Cardoso, onde as ruas e as casas são mais do que centenárias e uma igrejona antiga e quase em ruínas tenta parar em pé no meio de uma praça enorme.

De volta à estrada, eu percorri algumas dezenas de quilômetros até Jaíba, uma cidade com certa repercussão nacional por causa do “Projeto Jaíba”, o maior empreendimento de irrigação da América Latina. Isso explica por que a estrada corre sempre entre plantações de banana a sumir de vista. Jaíba é cortada ao meio pela rodovia, e se um dia você passar por aqui, vai notar que lá no final, na saída da cidade, há uma padaria que não vende água mineral sem gás.

No trecho entre Jaíba e Janaúba eu cruzei uma fazenda chamada “Dinizlândia” e a cidade “Capitão Enéas”, que é conhecida como “a cidade das avenidas”. Deu uma vontade danada de entrar ali e descobrir por que diabos as avenidas são a fama local, mas eu estava com um pouco de pressa e, pela primeira vez nesta viagem, dirigia em alta velocidade.


Cheguei à Janaúba por volta de meio-dia e, depois de dar uma volta por aquela cidade de sessenta e poucos mil habitantes que se intitula a capital das frutas, achei melhor seguir para Montes Claros e tentar desperdiçar o restinho de tarde ao lado de uma piscina de hotel.

Os cento e vinte quilômetros até a “capital do norte de Minas”, eu dirigi pensando nos últimos dias de viagem. Cada um daqueles lugares únicos pelos quais passei e cada uma das histórias que descobri nas pessoas que cruzaram meu caminho. E então eu cheguei à conclusão de que precisaria descobrir um jeito de terminar este relato de viagem, já que o fim da expedição se aproximava.

Esse troço estava na minha cabeça quando entrei em Montes Claros e me vi numa cidade grande, com avenidas longas, shopping-center, universidades, aeroporto e tudo o que as cidades grandes têm.

Como presente pra mim mesmo, depois de muitos dias pelos rincões mineiros, eu escolhi um hotel que estava na parte de cima da lista do “Guia 4 Rodas” e gastei a ponta de tarde tomando um solzinho fraco e escrevendo este texto, sobre meu décimo segundo dia no São Francisco. Mas ainda sem saber como fechar o relato da viagem.

Depois, à noite, fiquei pensando principalmente nisso enquanto tomava uma Original no bar “Mapa de Minas”, que ocupa uma esquina de uma avenida cheia de bares, restaurantes, sorveterias e outras coisas com fachadas iluminadas. Ao meu redor, televisões de LCD, um espetinho de filé mignon e mulheres maquiadas usando bolsas maiores do que precisariam ser me confirmavam que a paisagem realmente havia mudado.

E, quando um Audi A3 parou em frente ao bar e dele desceu um rapazinho com gel no cabelo, eu tive a certeza de que a parte verdadeira desta viagem já tinha terminado lá atrás.

Não que as cidades maiores – e as maiores ainda, e as metrópoles também – não tenham bons personagens, boas histórias e milhões de coisas únicas. É claro que elas têm; e o Gay Talese e o Eduardo Coutinho, só pra citar dois exemplos, já cansaram de nos mostrar isso. Mas é que simplesmente não me interessam nesta viagem em particular.

E a esta altura eu já tinha pagado a conta e descoberto como seria a última parte deste relato, que será escrita em algum ponto entre Montes Claros e Belo Horizonte. Provavelmente, em Cordisburgo. Eu acho que vou dar a ela o título de “Epílogo” ou de “Confissões”. Ainda não decidi. Mas isso, só amanhã, porque agora eu preciso dormir.

Um comentário:

  1. Já estou triste, será muito estranho não esperar mais pelo texto do próximo dia.

    ResponderExcluir