(Cordisburgo, Minas Gerais, 21 de julho de 2009, 23h41)
Quem vai ao encontro do outro com a disposição para conhecer, e a humildade para compreender, descobre a verdade que há por trás da diferença e por dentro da experiência vivida.
Eu pensei muito nisso durante os treze dias de viagem pelo São Francisco. E não tenho dúvida de que a justificativa para a jornada esteja justamente nessa busca pela verdade escondida nas vidas e nas histórias daquele pedaço de mundo.
Isso porque, desde o quilômetro inicial, a viagem se propunha a servir como matéria-prima inspiradora, espécie de alicerce de construção, uma vez que a idéia primeira sempre foi continuar a aventura real com uma aventura literária.
Talvez.
Por essa pretensão criativa, eu precisava mergulhar no rio antes de falar do rio, já que a trilha da literatura, a meu ver, deve se iniciar sempre na verdade de quem conta. Uma verdade que não necessariamente precisa estar na realidade, porque o rio pode ser aquele em que se nada, mas pode ser também um rio preso no tempo ou projetado num sonho. Desde que seja verdadeiro até a última gota.
O meu rio – o que eu procurava e precisava – não estava no tempo nem no sonho, mas estirado pelo mapa de Minas a espera de ser conhecido.
E eu fui ao seu encontro porque só assim descobriria a atmosfera que representa a verdade de um lugar e que talvez pudesse me ajudar a oferecer a um hipotético leitor a oportunidade real de viver, na ficção, um mundo que não seja o seu, a partir de um ponto de vista novo e dentro de um contexto tão genuíno quanto revelador.
Em minha opinião, apenas dessa forma – ancorada numa verdade que não se quebra e não se controla – a literatura alcança a sua essência, que é proporcionar a quem lê o poder de expandir sua experiência de gente, rompendo suas limitações individuais e minimizando o vazio existencial inerente a quem vive. Sempre jogando luz sobre a beleza e a dor das pessoas, muitas vezes escondidas embaixo da rotina.
Eu acho.
À procura deste estofo inspirador, de Cássia até este ponto final da viagem, a cada quilômetro rodado, eu tentei pouco a pouco me desprender da vida familiar e me abrir para um mundo novo, o que aconteceu devagar e não sem esforço, como quem tira uma roupa molhada do corpo.
Primeiro, você é incapaz de observar com outros olhos além dos seus olhos de sempre. Você se defronta com o diferente e não sabe não julgar. Enxerga aquela gente, suas idiossincrasias e suas privações – as reais e as inventadas por seu preconceito, e tenta então buscar alguma resposta que seja esclarecedora ou que te traga paz. E enquanto se comporta assim, você se relaciona com estereótipos e vive a superfície da experiência.
Isso explica porque, apesar de não admitir, você não consegue compreender como suportam viver em um mundo que não é o seu e que parece não ir além de onde alcança a vista. Como conseguem viver à margem e se contentar com o mínimo?
E você evita a todo custo que sua consciência perceba as questões e as respostas que correm por sua cabeça, porque você tem vergonha e não se julga um imbecil.
Parece se esquecer que o diferente deve intrigar, fascinar e acrescentar, não mais que isso. Demora a perceber que está medindo a terra em frente com sua própria régua.
Mas aí, de uma hora pra outra, você presta atenção e vê que o comerciante desdentado cria os próprios netos como filhos, depois que a Doença de Chagas os deixou órfãos tão cedo. Você nota que o recepcionista de hotel, muito simples, faz questão de buscar no fundo da gaveta meia dúzia de palavras imponentes só pra poder falar com mais amor de sua própria cidade. E a cozinheira gorda sai de dentro de uma cozinha apertada e esboça um orgulho humilde ao te dizer “tem grelhado e ensopado; qual você prefere?”. E o casal adolescente gargalha lá na outra esquina com os olhos pregados um no outro; o segurança te conta seus planos para comprar uma canoa de seis metros; e a moça branquela estréia um vestido violeta numa sexta-feira à noite.
Você observa tudo e tudo o que você observa lhe proporciona um raro sentimento de compaixão e solidariedade.
A partir desse ponto, seu coração e seus olhos se abrem, e você vê a sua frente pessoas de carne e osso, de histórias e de sonhos, donas de suas próprias vaidades, reféns de seus próprios defeitos e engrandecidas por suas próprias qualidades. E então você se coloca no mesmo nível que elas e se torna uma esponja para absorver toda a verdade que circula ao seu redor, já que você sabe que, agora sim, caminha sobre o chão que procurava.
Pela convivência humilde e atenta, você aprende a colher um pouco do que há de único naquela gente. E dessa singularidade colhida, todos os reflexos, mesmo os distorcidos, mantém a força da autenticidade.
Por isso, e só por isso, não importa mais se o Xisto existiu de fato, ou se nasceu da observação de um velho sertanejo enrolando a palha do seu cigarro, combinada a três frases esparsas ouvidas de um freguês no balcão de uma venda. Não importa se a Fabiana é realmente uma pobre garota ingênua vivendo à margem da felicidade, ou se é também uma prostituta diletante à procura de uns trocados a mais. Não importa se houve mesmo melancolia numa segunda-feira em Pirapora, ou se o Telêmaco é mais ou menos que uma frase impressa numa camiseta, ou se o Jair se chama Jair, ou se a farmácia estava aberta àquela hora, se o silêncio dominou mesmo aquela noite, e se um velhinho solitário verdadeiramente cantava à porta de um hotel...
Mais do que julgar categoricamente a verdade ou a mentira, a grande questão é relativizar o julgamento.
A verdade que eu procurei nos dois mil, quinhentos e quarenta quilômetros de viagem está registrada apenas de forma parcial nas oitocentas e vinte e duas fotos e nas cinco horas e meia de gravações em vídeo. Sua essência está na impressão que aquele universo me proporcionou, porque a verdade, muitas vezes, supera os fatos e se mostra também nos rastros que eles deixam em quem vive.
Isso é o que fica. Isso é o que importa.
Este prosaico blog de notas traz as histórias por trás desta viagem, mas não só, pois é também o bastidor de um processo criativo e o laboratório de palavras onde se testa as fórmulas descobertas no dia-a-dia de um povo e de um lugar. Os textos que se empilham aqui não têm a pretensão de escalar muitos níveis até atingir a literatura; no entanto, como toda e qualquer história contada, estão a meio caminho entre a experiência inspiradora e o olhar que se lança sobre ela.
A minha viagem pelo São Francisco permanece como memória e como experiência. E dela nascerá a inspiração verdadeira para uma nova aventura; esta no papel. Uma aventura que deverá se iniciar mais ou menos assim:
“Você uma vez me disse que meu maior defeito era tentar colocar tudo em palavras...”
E mais não há pra dizer.
E.
(Belo Horizonte, Minas Gerais, 22 de julho de 2009, 19h39)
quinta-feira, 23 de julho de 2009
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Muito bom. Pena que acabou.
ResponderExcluirAbraço